terça-feira, 23 de novembro de 2021

A Coach e o slouch

 


          Estávamos saindo da festa, como eu tinha bebido um pouco não ia voltar dirigindo, na verdade fui sem saber como voltaria. Um amigo do trabalho me ofereceu uma carona, pra mim e pra outra colega, a Mauricia, uma dessas New Coachs que fracassou em quase tudo na vida e após fazer dois dias de curso se julga apta para guiar pessoas no caminho do sucesso nas várias dimensões da existência.

          Como dizem por aí, Mauricia estava “fodida e mal paga”. Recém separada de um casamento frustrado, obrigada a voltar para a casa dos pais e agora Coach Quântica sem nunca ter sequer sentido o cheiro de um livro de Mecânica Quântica, Mauricia tinha uma paixão secreta por Junior, nosso caroneiro.

          Nos planos dela, e até eu assim imaginei, Junior me deixaria em casa e por último deixaria Maurícia, dessa forma poderiam desfrutar de todas as luxúrias possibilitadas pelo alcoolismo. Mauricia era um tanto chata, mas até eu me surpreendi quando Junior a deixou em casa primeiro. A cara de frustração dela foi impagável.

          No banco do carona eu tomava uma Heineken, mas com um rótulo diferente do original. Era um rótulo com tons brancos, mas o principal era o adocicado da cerveja, que fugia do amargor tradicional da Heineken. O sabor se assemelhava inclusive a uma Malzbier.

          Junior me deixou na casa dos meus pais e comentei com ele: “Putz, da hora essa Heineken, não tem aquele amargor desagradável”.

          Na mesma hora Junior tomou a long Neck da minha mão, tacou na parede e tal como um sommelier de cerveja comentou: “a espuma escorre bem, mas não tem slouche, o punch é fraco e não tem camadas de sabores. Mal estruturada”.

 

Saymon de Oliveira Justo  23-11-2021

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

O GRANDE CLÁSSICO

 


- O menino está com febre!

          Eu estava sem camisa, me consumindo no calor, como poderia estar com febre? Mas se minha mãe colocava uma coisa na cabeça não tinha Cristo que a demovesse. Ela iria perturbar a casa inteira até tirar todo mundo da cama em plena madrugada.

          Já beirava às 4 da madrugada, eu me sentia muito bem, apenas incomodado com o escaldante calor de um setembro sem chuvas. Mas na cabeça dela, mesmo com o termômetro dizendo o contrário, eu estava com febre.

          Todos na casa acordaram, eu, que já não conseguira dormir por conta do calor, minha irmã por causa do pandemônio e meu pai, que em poucas horas precisaria sair para o trabalho e perdeu sua noite de descanso.

          Me sentei na cadeira da cozinha, meu pai vestia uma camisa, observei uma mancha muito escura em sua barriga. Como eu era praticamente um médico, pois assisti várias vezes todas as temporadas de House, logo diagnostiquei uma necrose. Me assustei, falei pra ele procurar de imediato um médico. Mas ele disse que não era nada e para minha surpresa passou a mão sobre a tal necrose e limpou como se fosse um bolor.

          Passou mais um tempo, minha mãe gritando pela casa “o menino está com febre”, minha irmã querendo dormir e meu pai estranhamente ainda trocando a camisa. Outra necrose enorme nas costas. Novamente insisti na necessidade de correr ao médico com urgência, pois em alguns episódios de House já tinha visto pessoas perderem dedo, braço e até perna por necrose. Mas ele novamente disse que não era nada. Só puxou uma ponta e o que parecia necrose na verdade era uma escama de peixe preto que se descolou e revelou a pele integra por baixo.

          Minha mãe ainda insistia na febre, mas meu pai e eu estávamos sentados na mesa da cozinha. O relógio marcava 4 da manhã. Ligamos a TV e Palmeiras e Corinthians jogavam ao vivo valendo vaga para alguma fase de algum campeonato.

          Apesar da seca de setembro, o campo estava encharcado pela chuva e o jogo corria sério risco de ser paralisado. O placar marcava 1x1 e faltavam uns 20 minutos para acabar o segundo tempo. Minha mãe falava da tal febre inexistente, meu pai e eu assistíamos ao clássico e minha irmã dormia apoiada na mesa.

          Palmeiras no ataque, pela esquerda, o defensor corintiano puxa a camisa do atacante alviverde e não sei por qual lei física consegue tirar toda a roupa do palmeirense. O jogador do Palmeiras ficou totalmente nu em campo, tentou pegar o uniforme, mas outro atleta corintiano pegou as roupas e saiu correndo pelo campo e rindo debochadamente.

          Nesse ponto o árbitro paralisou a partida. Passaram-se alguns minutos, tudo foi se ajeitando, o juiz voltou com a bola na mão. O risco de paralisar a partida por conta do gramado encharcado era grande. Minha mãe falava da febre. Eu já tinha esquecido a necrose e juntamente com meu pai torcíamos para o prosseguimento da partida e a expulsão dos atletas corintianos, o que puxou o uniforme e o que saiu correndo com ele.

          Volta o árbitro com a bola na mão. Gramado parecendo um brejo. Toda pinta de paralisar a partida. Minha mãe falando de febre. Ansiedade. Meu pai e eu fixados na TV. O árbitro tira o cartão vermelho do bolso e expulsa os dois jogadores corintianos.

          Segue o jogo!!!

 

 

                                       Saymon de Oliveira Justo 20 de setembro de 2021

 

 


domingo, 25 de abril de 2021

Chuck e eu

 

                                


                                          

            Confesso que senti um frio na barriga quando abri o embrulho deixado pelos Correios. Sempre fui bastante cético e racional, mas abrir aquele pacote que eu não havia pedido e me deparar com um boneco Bonzinho, foi no mínimo estranho. Seja por conta da saga do Brinquedo Assassino, seja pela forma estranha que chegou às minhas mãos, confesso que pensei em me desfazer o mais rápido possível daquele brinquedo, porém, como cético convicto, não poderia me dobrar a impressões infantis.

            Deixei a caixa com o Bonzinho em um canto qualquer e voltei aos meus não poucos afazeres. Mas, por ridículo que pareça, sempre me surpreendia olhando para o boneco a procura de algum movimento das mãos, algum olhar, enfim, algo que denunciasse que aquele artefato de pano e plástico poderia abrigar a alma do tal assassino  Charles Lee Ray.

            Pensei em tirar o plástico da caixa, verificar se o Bonzinho estava com pilhas, passou pela minha cabeça inclusive guardá-lo no cofre forte. Mas não, um admirador de Einstein como eu não poderia cultivar esse ridículo nem no anonimato da própria mente. Depois do trabalho simplesmente desabei no sofá e adormeci.

            Não tenho idéia de quanto tempo dormi, só me recordo de acordar com um inesperado barulho de plástico. Achei que podia ser a TV, mas essa estava desligada. Ainda sonolento consegui firmar o olhar naquela já conhecida figura. Sim, por inacreditável que pareça Chuck estava ali, em pé, na minha frente. Aquela horripilante figura de cabelos vermelhos, com seus frios olhos azuis e aquela inconfundível e infernal risada, segurava uma faca quase maior que o próprio corpo.

            Pensei que podia estar mergulhado em um pesadelo, mas logo me dei conta que era o Chuck e não o Freddy. Levantei-me vagarosamente, atento a cada movimento do Bonzinho. Ele caminhava em minha direção. Faca em punho, “seremos amigos para sempre”, me dizia cinicamente. Conforme aprendi nos filmes, a única solução possível seria correr. Quando me preparava para sair em direção à porta Chuck tropeçou em um livro e estatelou no chão. Era minha chance de fugir.

            Resolvi fazer diferente. Não estava disposto a passar dias sendo coagido por aquele boneco patético. Coloquei em prática um plano que sempre cultivei quando assistia a saga do Brinquedo Assassino. Aliás, sempre me perguntei por que o Andy e outros atormentados não faziam algo mais simples do que correr.

            Primeiramente pisei no pescoço do Chuck, impedindo que ele alcançasse a faca. Como imaginei inúmeras vezes, realmente aqueles 1,5 kg de plástico e alma penada não teriam força para derrubar meus 80 kg cultivados a base de Coca Cola e carne assada. Abaixei-me e peguei o Chuck pelo pescoço, olhando diretamente nas profundezas dos olhos daquele demônio.

            Ele xingava, blasfemava, ameaçava e até tentava dar socos e chutes com aquelas perninhas e braços ridículos. Mas o máximo que acontecia, quando chegavam a tocar meu peito, era me deixar ainda mais irritado. Mesmo assim, como já tinha assistido todos os filmes, resolvi não facilitar e levei o boneco para minha oficina.

            Deitei o Chuck no cepo de madeira em cima da bancada de trabalho e com a outra mão empunhei a furadeira. O furo foi bem no local do umbigo, se é que aquela criatura tinha um. Ele gritou um bocado e uma mistura nojenta de sangue e plástico espirrou na minha blusa. Chuck esperneava, xingava, me ameaçava, mas pouco podia fazer diante daquela situação que lhe era tão desfavorável.

            Quando o parafusei firmemente no cepo sua atitude mudou. Os olhos azuis se tornaram angelicais, ele se desculpava, dizia que era um Bonzinho e que “seríamos amigos para sempre”. Aquilo me cortou o coração. Resolvi dar uma chance para ele, mas não antes de tomar minhas precauções.

            Com uma serrinha resolvi amputar as perninhas do Chuck, assim ele não cairia na tentação de correr atrás de mim. Ele urrava de dor, dizia palavrões do arco da velha, mas tudo aquilo era para o bem de nossa amizade. Novamente a mistura de sangue e plástico saia dos cortes. Não entendo muito da fisiologia de bonecos com alma encarnada, mas mesmo parecendo que o plástico agiria como coagulante, resolvi zelar o máximo possível pela vida do Chuck e com um maçarico queimei as extremidades de onde antes estavam as perninhas, para que assim, ele não se esvaísse em sangue.

            Quando achei que estava tudo resolvido e poderia soltar meu amigo Chuck, me lembrei da clássica cena dele com aquelas faquinhas enfiadas na mão e ameaçando geral. Era preciso amputar os braços. Com dor no coração, fiz o mesmo procedimento que havia feito nas pernas. Chuck novamente gritou e xingou bastante, mas era preciso.

            Ao final, depois de devidamente cauterizado com o maçarico, Chuck ou Charles Lee, se tornou um belo e inofensivo “tronco e cabeça”. Mas mesmo assim não achei prudente simplesmente solta-lo. Vai saber né?

            Hoje Chuck vive feliz em uma gaiola projetada especialmente para ele e que fica dependurada na parede do meu quarto. Como não tem pernas e nem braços, não preciso me preocupar muito com a possibilidade de fuga. Mas ele xingava muito. No começo eu até achava engraçado, mas começou a me irritar um pouco e então resolvi costurar a boca do Chuck com linha de sapateiro. Hoje ele fica ali e me acalma muito deitar e ficar olhando para seus doces olhos azuis.

 

Saymon de Oliveira Justo      26/04/2021

               

sexta-feira, 16 de abril de 2021

EXPERIMENTO 017

 


                                                     

                                             RELATÓRIO DE ATIVIDADES

 

1º dia. Depois de capturados, os oito exemplares da espécie destinados à pesquisa foram submetidos aos exames de rotina, os quais demonstraram que todos os indivíduos estavam perfeitamente saudáveis e aptos para os experimentos.

            Colocados em jaulas individuais, foram devidamente higienizados e alimentados.


2º dia. Os indivíduos foram divididos em dois grupos, “Grupo A” e “Grupo B”. Cada grupo formado por dois exemplares machos e duas fêmeas. Todos os indivíduos tomaram suplementos alimentares para em dez dias estarem nas melhores condições possíveis para o início dos testes.


12º dia. Salvo algumas escoriações causadas por se debaterem nas jaulas e o estresse natural do confinamento, todos os indivíduos apresentaram boas condições físicas e foram considerados aptos para o início dos testes.

            Os indivíduos do “Grupo A” foram retirados das jaulas e levados para o laboratório. Cada espécime recebeu uma “Coleira de Controle”, de forma que não atrapalhasse a respiração, mas impossibilitasse tentativas de fuga.

            Cada indivíduo foi colocado em uma esteira e uma corrente foi presa à coleira de cada um e ao gancho no teto do laboratório. Apesar de impedir que a cobaia saia da esteira, a corrente permite os movimentos necessários ao teste.

            Eletrodos de voltagem controlável foram colocados nos indivíduos para que sirvam de estimulo para que cumpram o que deles se espera.

            Colocados em movimento pela esteira, três começaram a caminhar normalmente. O indivíduo A1 (fêmea), no entanto, inicialmente se recusou a andar, mesmo ficando em posição bastante desconfortável, caído e com a esteira girando por baixo de seu corpo. Porém, após três cargas consecutivas de choques de média intensidade o A1 se colocou em movimento.

            Após o início da caminhada na esteira os quatro indivíduos foram submetidos a doses leves de radiação (doses U1), mas conseguiram caminhar por 1 hora sem sintomas.


13º dia. Os indivíduos do “Grupo A” foram submetidos novamente ao teste do dia anterior, contudo, dessa vez submetidos a dose U2 de radiação.

            Após meia hora de teste o macho A3 começou a apresentar cansaço, suores excessivos e ofegava mais que os outros. Deixou-se cair na esteira, mesmo preso ao pescoço. Porém, após receber choques elétricos por duas vezes, se colocou de pé e concluiu o teste com êxito.


14º dia. O “Grupo A” foi submetido novamente aos testes, dessa vez com doses U3 de radiação. Após resistência inicial de todos antes do início dos testes, quando submetidos a choques moderados passaram a se mostrar mais cooperativos.

            Dessa vez, na primeira meia hora de esteira os indivíduos A1, A3 e A4 apresentaram cansaço excessivo e vômitos. Porém, com os estímulos elétricos, mesmo com dificuldades conseguiram concluir a hora de teste. O indivíduo A2 apresentou apenas cansaço excessivo.


14º ao 25º dia. O “Grupo A” foi submetido diariamente ao mesmo teste, agora sempre com radiação moderada U3, por 1 hora ao dia.

            A partir da primeira meia hora todos os indivíduos passaram a apresentar cansaço excessivo e vômitos, mas com os estímulos por choques elétricos todos conseguiram terminar os testes.

            No 28º dia os indivíduos A1 e A4 apresentaram anemia e déficit de glóbulos brancos, tendo que ser sacrificados. Os indivíduos A2 e A3 apresentaram prostração, vômitos persistentes, mas sem maiores problemas. Foram sacrificados apenas por se encontrarem contaminados.


15º dia. Os indivíduos do “Grupo B” foram submetidos aos mesmos testes que os indivíduos do “Grupo A”. Todos os parâmetros foram mantidos, apenas as doses de radiação foram modificadas.

            Os testes foram iniciados com radiação de dosagem U4. A partir do minuto 40 todos os indivíduos apresentaram cansaço excessivo, sendo que a fêmea B1 e o macho B4 apresentaram vômitos. Porém, com os estímulos elétricos todos conseguiram terminar o teste.


16º dia. O “Grupo B” iniciou os testes novamente com U4 de radiação. Já nos primeiros 20 minutos todos apresentaram cansaço excessivo e o macho B4 vômitos. Mesmo com três estímulos elétricos o B4 não se levantou. Permaneceu caído, pendurado pelo pescoço e com fortes vômitos. Quando ia ser retirado da esteira teve parada cardíaca e faleceu.

            Os outros três indivíduos tiveram fortes crises de vômitos, caíram algumas vezes, mas com os choques elétricos conseguiram concluir os testes.


 17º dia. Iniciamos o teste com radiação U5. Nos primeiros 35 minutos todos os indivíduos já tinham apresentado cansaço excessivo e fortes vômitos. Mesmo submetidos aos estímulos por choques elétricos, não conseguiram terminar o teste. Até o minuto 45 estavam todos prostrados na esteira, com fortes vômitos, sangramentos nasais e forte confusão mental.


18º dia. Tentamos recuperar os indivíduos para mais um dia de teste. Receberam medicação, suplemento de vitaminas e cuidados paliativos. Entretanto, a fêmea B1 não resistiu.

            Mantidos os parâmetros do dia anterior, com radiação U5, o macho B2 e a fêmea B3 caíram já no minuto 15. Nem mesmo com cincos ciclos de choques elétricos fortes os indivíduos se levantaram. Permaneceram caídos nas esteiras, pendurados pelo pescoço e com crises incontroláveis de vômitos. Apresentaram também forte sangramento nasal.

            Mostrando-se claramente inaptos para novos testes, os exemplares foram sacrificados.

 

                                           CONCLUSÕES PRELIMINARES

 

            Os resultados dos testes nos permitem concluir que a espécie humana é biologicamente apta para remoção de detritos em territórios contaminados. Dessa forma, por razões econômicas, concluímos ser mais viável utilizar o grande estoque disponível de humanos do que os mais escassos habitantes quadrimãos do Planeta 3 do Sistema de Capella.

            Em áreas com radiação até U3 os humanos conseguem trabalhar bem por até 1 hora/dia durante 20 dias. Depois disso devem ser sacrificados, pois a radiação acumulada no organismo os torna inviáveis.

            Em áreas com radiação U4 e U5 os humanos podem ser utilizados por até 20 minutos/dia, mas por apenas 5 dias, devendo ser descartados ao final desse prazo.

            No que toca a considerações econômicas, sugerimos enfaticamente a criação de “Fazendas de Humanos”, com criação intensiva, pois é até agora a forma mais viável de remoção de detritos radioativos para áreas que pretendemos colonizar no planeta Terra.

 

Comissão Científica para Colonização da Terra. Ano III 

                          

terça-feira, 30 de março de 2021

FORTALEZA

 


        Recordo-me de descer do avião e alguém me dizer que tínhamos acabado de aterrissar em Fortaleza.  Minhas memórias começam ali, não me lembro de ter comprado passagem, ido ao aeroporto e nem do voo em si. Sei que não viajava sozinho, mas tampouco me recordo quem estava comigo. Vagamente acho que vi meu pai em algum momento após sair do Aeroporto, mas mesmo essa lembrança é pouco nítida.

            Minha memória sobre os eventos que por hora relato assemelha-se mais a um álbum de fotografias do que a um filme. E mesmo assim, existem enormes lacunas entre uma foto e outra. Das escadas do avião já me vejo na praia. Ah, a praia! O mar do Nordeste! Era um sonho que se tornava realidade. Sempre fui encantado pelo mar, mas o mar do Nordeste, aquele imensidão aberta para o mundo, aquilo me tocava profundamente.

            Mas o que vi era bastante distante do mar dos meus sonhos, do que tinha visto em fotos e filmes. Eu esperava algo parecido com Mangue Seco, que tanto me encantou quando criança na novela Tieta. Aquilo era decepcionante. Era mais um canal, uma espécie de entrada e saída de porto. A água tinha o verde dos meus sonhos, a areia era fina e branca como eu imaginava, mas não tinha ondas e tampouco eu me senti aberto para o mundo.

            Resolvi caminhar. Certamente as praias paradisíacas, sombreadas por coqueiros, com os pitorescos barcos dos pescadores, estariam mais a frente. Conforme eu andava a decepção só crescia. As praias amplas e os coqueiros até apareceram, mas aquilo mais parecia uma represa. Onde estavam as ondas?

            As pessoas que estavam comigo pareciam felizes, falavam de como era bom aquele mar calmo, parecendo uma piscina. Sinceramente nunca entendi isso. O que é uma praia sem a eterna luta entre a terra e o oceano, sem a violência das ondas quebrando na praia, sem a “cabeça loura das ondas”, como dizia Castro Alves? Não, não, aquele não podia ser o mar do Nordeste.

            Nesse ponto uma nova lacuna aparece no álbum das minhas recordações. Só me lembro que olhei para o céu e vi aquela imagem pavorosa, aquele artefato maldito que me aterrorizava desde criança, aquela besta saída das profundezas do inferno. Era a Bomba Atômica. Vi-a chegando, lentamente, como o prólogo do pior dos pesadelos. Mais que a explosão em si, o que sempre me aterrorizou era o poder invisível da radiação, a morte dolorosa que aquela energia libertada do âmago da matéria carregava. Pensei em correr, me afastar o máximo possível do centro da explosão.

            Não sei bem o que aconteceu nesse momento, mas um jovem ao meu lado começou falar que aquilo era culpa da China, que ele sabia de tudo. Vi o clarão da explosão, pensei em fugir, mas preferi ficar e argumentar que aquilo certamente era coisa dos americanos.

 

 

                                                                       Saymon de Oliveira Justo

                                                                       31/03/2021

quinta-feira, 25 de março de 2021

O HOMEM BOM

                                                       

                    


                                                                       vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas                                                                                                     perderam o medo e as melhores perderam a                                                                                                    esperança” (Hanna Arendt)

 

                                Como era bom sentir aquela sensação, pensou o homem ao descer as escadas para tomar o café da manhã com a esposa e os filhos. O ano anterior tinha sido bastante complicado. Geralmente, nesta hora da manhã ele e a esposa já estavam brigando por conta da falta de dinheiro até para comprar comida. Quando não, nessa mesma hora ele estava chegando em casa de uma bebedeira na cervejaria do bairro, pois para essas necessidades primordiais o dinheiro sempre aparecia.     

            Mas agora ele descia orgulhoso as escadas. O uniforme novo lhe caia muito bem, conferia a dignidade necessária perante os filhos e a esposa. O cabelo bem cortado, a barba feita e o frescor da loção de barbear impregnavam a casa com o otimismo dos novos tempos.

            Beijou ternamente o rosto da esposa, afagou a cabeça das crianças e se sentou á mesa para o café. A claridade dessa hora da manhã, o perfume do café e do chá, o cheiro de pão recém assado, traziam á mente sua infância no lar paterno. Desde que entrara para o Partido e conseguira o novo emprego, sentia a agradável simetria de ser o chefe de família que seu falecido pai havia sido.

            Alheio ao que os filhos conversavam, tomava seu café enquanto o pensamento se voltava para as crianças do orfanato que ele e a esposa haviam visitado na tarde anterior. Aqueles olhinhos desconfiados, que mesmo quando sorriam carregavam uma tristeza permanente, eram como um punhal em sua alma. Mesmo não tendo ainda condições de adotar mais uma criança, lhe dava certo conforto as visitas que faziam mensalmente às crianças orfanato. Sempre levavam bolo.

            O toque da campainha desfez seus pensamentos e o lembrou que já estava atrasado para o trabalho. O dia seria cheio, aliás, todos eram. Mas apesar do cansaço físico, sua alma estava leve, não apenas pela segurança de agora poder prover adequadamente o sustento da família como também pela sensação de que, para além disso, trabalhava pelo seu país, por seu povo. Assim vivem os homens bons e ele, agora, se sentia um homem bom.

            Beijou a esposa, prometeu que chegaria mais cedo e lhe levaria ao teatro à noite. Antes de sair de casa olhou ainda mais uma vez para a família sentada á mesa. Não era muito religioso, mas no silêncio de sua confusa fé agradeceu a Deus por ter colocado sua vida nos eixos novamente. Abriu a porta, o motorista já lhe esperava.

            Sentou-se no banco de trás do automóvel, pois queria aproveitar a viagem para ler as notícias do dia e preparar os relatórios das cargas que haviam recebido nas últimas semanas. O país ia bem, as pessoas voltavam a ter trabalho, comida na mesa, enfim, dignidade. E ele fazia parte daquilo. Seu trabalho era importante para que não houvesse retrocessos.

            As noticias eram animadoras. A produção crescia a cada dia, o país se tornava cada dia mais respeitado no cenário internacional. O povo voltava a sentir orgulho da nação. E ele fazia parte desse renascimento. Ele era um homem bom. O Partido era feito de homens bons. O chanceler era um homem bom.

            Como acontecia todas as manhãs, tão logo o carro saiu do perímetro urbano e mergulhou velozmente na recém inaugurada rodovia, ele largou o jornal de lado. Aquela paisagem o hipnotizava, lhe causava verdadeiro encantamento, levando-o a experimentar tal emoção que às vezes tinha que segurar para que uma lágrima não lhe brotasse dos olhos. Aliás, desde a infância a floresta lhe despertava esse êxtase.

            Da janela ele admirava o tapete de grama coberto por flores amarelas. Ao fundo, a floresta, sempre ela. Os pinheiros, as castanheiras, os abetos... Novamente sua memória o levava de volta a infância, quando aos domingos ia com o pai caminhar na floresta, colher cogumelos e vez ou outra pescar. Ele lembrava do pai, que era um homem bom e se sentia feliz por a cada dia se tornar mais parecido com o pai e ser também um homem bom.

            O solavanco do carro desfez a atmosfera de nostalgia na qual estava mergulhado e lhe mostrou que estavam chegando. De longe viu a fumaça das chaminés e sentiu aquele cheiro inconfundível que indicava que o trabalho estava sendo feito. Passaram pelo primeiro posto de identificação e logo pode ver que eles trabalhavam. O trabalho liberta, pensou. Aliás, esse era o lema indicado pela placa já na entrada.

            

 

Saymon, 25 de março de 2021                



                                                   

           



NÓS

 

                                                       


E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança (...). E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

Gênesis.

 

Despertou antes mesmo que os primeiros raios de sol lhe pousassem sobre a face. Na escuridão da caverna as pulgas o atormentavam, porém, não foi por isso que se levantou antes de todos do bando. Seu estômago doía, a sensação do ácido lacerando suas entranhas dizia que era hora. Não avisou ninguém, e mesmo que quisesse não o poderia fazer, pois o dom da fala ainda não lhe pertencia, apenas ao criador, sua imagem e semelhança. Não podia esperar.

Caminhou com desenvoltura pela planície, não porque o luar o favorecia, pois o astro que mais tarde seria motivos de tantas estrofes teimava em se esconder. O bando já vivia ali há um bom tempo, desde que a grande seca o havia levado para aquelas paragens. Conhecia cada pedra, cada galho fora do lugar, cada pormenor daquele arrabalde. Uma hora depois, por nossos modernos relógios ainda desconhecidos naqueles idos, sentiu certo desconforto. Sem o menor movimento de pescoço que indicasse qualquer preocupação em verificar a presença de um observador, tão somente se agachou e colocou para fora o que lhe angustiava.

O sol já lhe queimava a rala pelagem e ele continuava caminhando. Pouco depois cerrou os olhos para perceber melhor o que estava em seu caminho. Lá estava ela. Com sua pelagem quase imperceptível, os lábios rubros e protuberantes, os mamilos róseos e quase nus, a genitália avermelhada como sangue fresco… Não foi amor à primeira vista, apenas impulso incontrolável. Sem flerte algum, sem rosas e nem vinho, pegou-a pela cintura, de costas. No começo ela resistiu, debateu-se, mas logo que teve certeza da desproporção de forças e do impulso titânico que tomava sua carne, entregou-se a ele. Alguns segundos depois, sua segunda necessidade estava satisfeita. Seguiu seu caminho.

A cada passo aumentava a dor que lhe rasgava o estômago e logo um barulho despertou sua atenção. Apertou o passo e seguiu na direção indicada aos ouvidos. A saliva inundou-lhe a boca quando viu aquele animal cambaleando logo à sua frente. O perfume do sangue atiçava ainda mais sua fome. Olhou a procura de algo que lhe servisse para a ocasião, mas só encontrou um grande pedaço de pedra. O animal, percebendo o perigo que lhe rondava, e mesmo naquela situação, ainda tentou fugir. O primeiro golpe não o matou, mas o grito agonizante não deixava dúvidas que seu fim estava próximo. O segundo golpe atingiu em cheio a fronte, fazendo com que o sangue esguichasse abundantemente.

Quando agachou para dilacerar a carne sentiu que não estava sozinho. A luta ia ser dura, pois o outro macho era bem mais robusto. Contudo, não sentiu medo. A coragem vinha de milhares de anos de evolução e de três dias e três noites sem alimento. Olhares se cruzaram, gestos, rituais, ameaças… Em alguns segundos os filhos de Deus debatiam-se no chão. O mais robusto conseguiu asfixiar o rival. Julgando-o abatido, levantou-se e foi recolher o animal morto.

O movimento do sol, que ainda não havia matado Galileu, queimou-lhe a face, lembrando-o que ainda estava vivo. Levantou-se vagarosamente, um pouco pela fraqueza e outro tanto por astúcia. Vendo o rival fartando-se sobre o animal morto, serenamente pegou uma rocha de tamanho médio e o golpeou na cabeça. Cambaleou, estremeceu, as babas de sangue saiam pela boca, os olhos pareciam cada vez mais inertes… Continuou golpeando, alucinadamente, até que a cabeça do rival se transformasse em uma massa disforme e arroseada pela mistura do sangue com a massa cerebral. Cansado, conseguiu ainda levar o alimento para debaixo de uma sombra. Saboreou com sofreguidão a carne misturada ao sangue da luta.

A terceira necessidade estava satisfeita. Encostou-se na sombra da árvore e adormeceu tranquilamente o sono dos justos.

 

Saymon DE Oliveira Justo 

segunda-feira, 22 de março de 2021

A cidadezinha

 


                      Sempre fui fascinado pelo mar. O cheiro da água salgada, da areia, o barulho das ondas quebrando, tudo isso sempre me trouxe uma indescritível sensação de paz. Nos momentos mais difíceis da minha vida me voltei para o oceano, mesmo que fosse na imaginação.

            Era uma tarde nublada, como muitas daquela época do ano, com chuviscos, céu cinza, mas nada de trovoadas ou tempestades. Eu voltava de uma consulta médica em outra cidade quando o ônibus parou naquela pequena rodoviária de uma pitoresca cidadezinha que, aliás, até hoje não sei o nome. Num vislumbre vi o mar. Não estava vestido com aquele azul encantador que tanto me fascina, mas era o mar. Aliás, sempre me encantei com a mistura de mar e cidadezinhas, pois fogem da enfadonha estética das orlas cheias de prédios, todos iguais.

            Sem muito pensar peguei minha mochila e desci, seria agradável passar uns três ou quatro dias naquela simpática cidadeinha. Apesar de pequena, julguei que não seria difícil encontrar um hotelzinho ou pousada compatível com meus parcos recursos. Queria mesmo só ver o mar. Sentar na areia sozinho e ficar horas olhando o vai e vem das ondas.

            A ruazinha de paralelepípedo, com casinhas de uma arquitetura antiga, tornava tudo ainda mais agradável. Tinha um cheiro de infância, de quando vi o mar pela primeira vez com meu pai. Pelo pequeno fluxo de pessoas, que pareciam ser turistas, imaginei onde poderia encontrar lugar para me hospedar.

            Atravessei a pequena pracinha em frente a rodoviária e me embrenhei por uma rua estreita, onde parecia ter uma pousada. Não me enganei. Caminhei pouco mais de um quarteirão e me vi em frente a um casarão, onde uma placa indicava quartos pra alugar a preços incrivelmente baixos. Era um casarão de dois andares, pintado com aquele amarelo desbotado que caracteriza as construções antigas. Só não pode ter baratas, pensei comigo.

            Logo uma moça loira, muito bonita, aparentando não mais que uns 27 anos, me atendeu e me levou pra conhecer os aposentos. Era uma dessas belezas angelicais, que não sabem da própria beleza. Era uma loira alta, das bochechas coradas, e nada na pele ou cabelos que indicasse maiores cuidados com a aparência. Entrei na casa e vi aquele assoalho de madeira, um ambiente escuro, com cheiro de mofo.  Mal sinal. Esses assoalhos de casas antigas geralmente escondem baratas. Uma senhora gorda de aparência pouco agradável, cheirando a fritura, me fez sinal para subir ao andar de cima para ver os quartos.

            Quando subi as escadas, com corrimão já se soltando, tudo rangendo, vi aquele assoalho afundado, sugerindo desabamento a qualquer momento. Tudo ao redor era decadência. De um buraco no assoalho tive até a impressão de uma barata me espreitando. Resolvi gastar um pouco mais e investir em acomodações mais confortáveis.

             Sai novamente para a rua em busca de um hotel. Em frente à Igrejinha um padre mal encarado não tirava os olhos de mim. Todo de preto, com chapéu igual ao padre de “O Exorcista” e aparência não menos macabra, o padre me olhava acintosamente, virando a cabeça de formas estranhas. Resolvi procurar informação em outro lugar.

            Um pouco á frente vi um quartel dos bombeiros e ali um soldado me informou que eu poderia encontrar um hotel na rua de trás. Querendo me afastar o mais rápido possível da macabra figura do padre que continuava me olhando, resolvi voltar em direção a rodoviária para ter acesso a tal rua de trás.

            Poucos passos andando de volta em direção a rodoviária vi uma senhora dos seus quarenta anos, com lenço no pescoço, blusa florida e chapéu. Passei ao lado dela e ela me encarou acintosamente. Nunca tinha visto um olho vesgo como aquele, menos ainda me encarando daquela forma pavorosa. Andei mais alguns passos, olhei pra traz e ela continuava me olhando, tal qual o padre do chapéu preto que agora estava ao lado dela.

            Quase chegando na rodoviária agora um senhor, com um olho tão virado como o da mulher, passou por mim e me encarou. Aliás, a rua estava cada vez mais cheia e todas as pessoas tinham aquele olho torto e me encaravam de forma assustadora, com um olhar onde se misturavam um pavor visceral com um ódio que parecia vindo das entranhas do inferno.

            Eu tentava correr, mas as pernas não obedeciam, por mais que andasse eu não conseguia sair daquela rua. As pessoas não mais apenas me olhavam, mas me perseguiam. Cada vez mais, todos com aquele olhar pavoroso agora tentavam me cercar.

            Nesse momento uma menina de seus doze anos, também com o olho torto, assustada, pegou minha mão, segurou e disse pra eu ficar quieto que se não fizesse barulhos eles não conseguiriam me ver.

 

  Saymon de Oliveira Justo

Ano II da Pandemia. 22 de março de 2021

Mel de barata

 


                                       

            Acordei, fui direto à cozinha e me deparei com aquele recipiente sobre a mesa. Não me recordo quem estava na cozinha e nem quem me contou qual a natureza daquela estranha iguaria. Era um pote de vidro transparente, bastante parecido com aqueles potes que usamos para colocar doce ou balas. No interior brilhava um líquido de um marrom-avermelhado, de aparência viscosa. Imersas no líquido, estranhas esferas escuras, de um marrom quase preto, semelhantes a uvas passas, mas arredondadas com mais esmero. “Mel de barata”, me disseram.

            Mais que o caráter surreal da situação, o que reavivou em minha alma foi o antigo pavor dessas criaturas. Logo me veio à memória o cheiro e a repugnância que sentia na infância quando via meu pai limpar uma caixa de esgoto de nossa antiga casa e logo se formar um tapete marrom de baratas. Não é exatamente medo. É uma mistura de repugnância, com horror, terror, pavor. Lembro até hoje do começo de “Almas Mortas”, do Gogol, onde ele descreve um quarto de hospedaria com baratas, saindo por todos os cantos, parecidas com ameixas secas.

            Na hora nem me preocupei com questionamentos científicos acerca da capacidade de baratas produzirem mel. Aliás, pensando agora, se o produzissem acredito que não seria nada parecido com o que eu vi naquele vidro, mas sim algo mais próximo daquela gosma branca que vemos quando uma barata é esmagada. Enfim, procurei me afastar o máximo possível daquele pote.

            Era estranho, não sei o que acontecia, mas eu não consegui sair daquela cozinha. Algo me mantinha no cômodo, apesar do desejo de sair até da casa. Perplexidade? Terror que paralisa? Alguma força metafísica? Sinceramente não sei, mas o fato é que o que viria a seguir seria ainda mais estranho e ainda menos crível.

            Alguém, e novamente não me lembro quem, mesmo porque não me lembro do rosto de ninguém naquela cozinha, alguém abriu o pote e com uma colher tirou a até então inofensiva esfera marrom quase preta de dentro do líquido. Colocada sobre a mesa, não sei se por conta do contato com algum elemento químico da nossa atmosfera, a estranha esfera começou a crescer e tomar forma.

            Quanto mais crescia mais ganhava contornos definidos, traços, forma. Em poucos segundos um estranho cachorro que não era cachorro, aliás, era mais parecido com um Demônio da Tasmânia, se formou por sobre a mesa. De pelagem marrom, aparentando uma aspereza encardida, o bicho por si só já era assustador, mas não repugnante. Porém, só de saber que aquela infernal criatura poderia ser uma metamorfose de uma barata, como diria Kafka, me causou profundo terror.

            Na verdade a criatura era ainda mais aterrorizante em sua nova forma, pois podia correr.

 

 

Saymon de Oliveira Justo

Ano II da Pandemia. 22 de março de 2021