Sempre fui fascinado pelo mar. O cheiro da água salgada, da areia, o barulho das ondas quebrando, tudo isso sempre me trouxe uma indescritível sensação de paz. Nos momentos mais difíceis da minha vida me voltei para o oceano, mesmo que fosse na imaginação.
Era
uma tarde nublada, como muitas daquela época do ano, com chuviscos, céu cinza,
mas nada de trovoadas ou tempestades. Eu voltava de uma consulta médica em
outra cidade quando o ônibus parou naquela pequena rodoviária de uma pitoresca
cidadezinha que, aliás, até hoje não sei o nome. Num vislumbre vi o mar. Não
estava vestido com aquele azul encantador que tanto me fascina, mas era o mar.
Aliás, sempre me encantei com a mistura de mar e cidadezinhas, pois fogem da
enfadonha estética das orlas cheias de prédios, todos iguais.
Sem
muito pensar peguei minha mochila e desci, seria agradável passar uns três ou
quatro dias naquela simpática cidadeinha. Apesar de pequena, julguei que não
seria difícil encontrar um hotelzinho ou pousada compatível com meus parcos
recursos. Queria mesmo só ver o mar. Sentar na areia sozinho e ficar horas
olhando o vai e vem das ondas.
A
ruazinha de paralelepípedo, com casinhas de uma arquitetura antiga, tornava
tudo ainda mais agradável. Tinha um cheiro de infância, de quando vi o mar pela
primeira vez com meu pai. Pelo pequeno fluxo de pessoas, que pareciam ser
turistas, imaginei onde poderia encontrar lugar para me hospedar.
Atravessei
a pequena pracinha em frente a rodoviária e me embrenhei por uma rua estreita,
onde parecia ter uma pousada. Não me enganei. Caminhei pouco mais de um
quarteirão e me vi em frente a um casarão, onde uma placa indicava quartos pra
alugar a preços incrivelmente baixos. Era um casarão de dois andares, pintado
com aquele amarelo desbotado que caracteriza as construções antigas. Só não pode
ter baratas, pensei comigo.
Logo
uma moça loira, muito bonita, aparentando não mais que uns 27 anos, me atendeu
e me levou pra conhecer os aposentos. Era uma dessas belezas angelicais, que
não sabem da própria beleza. Era uma loira alta, das bochechas coradas, e nada
na pele ou cabelos que indicasse maiores cuidados com a aparência. Entrei na
casa e vi aquele assoalho de madeira, um ambiente escuro, com cheiro de mofo. Mal sinal. Esses assoalhos de casas antigas
geralmente escondem baratas. Uma senhora gorda de aparência pouco agradável,
cheirando a fritura, me fez sinal para subir ao andar de cima para ver os
quartos.
Quando
subi as escadas, com corrimão já se soltando, tudo rangendo, vi aquele assoalho
afundado, sugerindo desabamento a qualquer momento. Tudo ao redor era
decadência. De um buraco no assoalho tive até a impressão de uma barata me
espreitando. Resolvi gastar um pouco mais e investir em acomodações mais
confortáveis.
Sai novamente para a rua em busca de um hotel.
Em frente à Igrejinha um padre mal encarado não tirava os olhos de mim. Todo de
preto, com chapéu igual ao padre de “O
Exorcista” e aparência não menos macabra, o padre me olhava acintosamente,
virando a cabeça de formas estranhas. Resolvi procurar informação em outro
lugar.
Um
pouco á frente vi um quartel dos bombeiros e ali um soldado me informou que eu
poderia encontrar um hotel na rua de trás. Querendo me afastar o mais rápido
possível da macabra figura do padre que continuava me olhando, resolvi voltar
em direção a rodoviária para ter acesso a tal rua de trás.
Poucos
passos andando de volta em direção a rodoviária vi uma senhora dos seus
quarenta anos, com lenço no pescoço, blusa florida e chapéu. Passei ao lado
dela e ela me encarou acintosamente. Nunca tinha visto um olho vesgo como
aquele, menos ainda me encarando daquela forma pavorosa. Andei mais alguns passos,
olhei pra traz e ela continuava me olhando, tal qual o padre do chapéu preto
que agora estava ao lado dela.
Quase
chegando na rodoviária agora um senhor, com um olho tão virado como o da mulher,
passou por mim e me encarou. Aliás, a rua estava cada vez mais cheia e todas as
pessoas tinham aquele olho torto e me encaravam de forma assustadora, com um
olhar onde se misturavam um pavor visceral com um ódio que parecia vindo das
entranhas do inferno.
Eu
tentava correr, mas as pernas não obedeciam, por mais que andasse eu não
conseguia sair daquela rua. As pessoas não mais apenas me olhavam, mas me
perseguiam. Cada vez mais, todos com aquele olhar pavoroso agora tentavam me
cercar.
Nesse
momento uma menina de seus doze anos, também com o olho torto, assustada, pegou
minha mão, segurou e disse pra eu ficar quieto que se não fizesse barulhos eles
não conseguiriam me ver.
Saymon
de Oliveira Justo
Ano II da Pandemia. 22 de março de 2021

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