segunda-feira, 31 de março de 2025

O Pedro, o Junão e o Uno do Pedro

 


Junão é amigo de infância, da primeira infância, de jogar bola descalço no asfalto, na Pracinha do bairro, amigo de juntar dinheiro para ir na locadora jogar Super Nintendo. Corintiano fanático, já tivemos inclusive uma patética e vergonhosa “briga de cuspe” por conta de um Palmeiras x Corinthians.

          Pedro é amigo do Ensino Médio, também corintiano fanático, mas nunca trocamos cusparadas por conta de futebol. Me apresentou a política estudantil, a política partidária, José Saramago, não pessoalmente, claro. Me apresentou também o Moisés. Graças ao Pedro conheço o Saramago e o Moisés, esse último sim, pessoalmente.

          O Pedro tem um vistoso Unão 98, com o qual diz que vai para Araraquara, Brasília, São Paulo... Desconfio que a única forma do Unão chegar em São Paulo seria se coubesse no bagageiro de um Cometa. O carro tem toda cara que frita o cabeçote a meio caminho de Cristais Paulista.

          Era Ano Novo e o bairro estava em festa. Uma confraternização acontecia na Escola Adelina Pasquino, que fica em frente ao “buracão do Palma”, na divisa entre o Jardim do Éden e o Jardim Palma. Uma parte do buracão foi loteada e virou bairro. Outra parte permanecia com a vegetação originária parcialmente preservada, talvez alguma das antigas minas d’água da infância e argila.

          Pedro e Junão não se conheciam e provavelmente nunca se conheceriam. Aliás, talvez sequer se conheceram. Curioso com a festa de Ano Novo na Adelina, fui me aproximando. Na rua da escola, que terminava no buracão do Palma, vi um Unão estacionado. Pedro deveria estar na festa. Próximo ao portão de entrada o Junão cambaleava, aparentemente tinha tomado umas.

          Fui entrar na escola para procurar o Pedro, mas antes me dirigi até o Junão. Foi justamente nesse ponto que a história do Pedro e do Junão se entrelaçaram tal qual um emaranhamento quântico. Junão se esquivou do meu abraço e ainda cambaleando foi se escorar no Unão do Pedro. Por experiência, nunca confiei no freio de mão do Uno. Após um “nhec nhec” o Unão, que não devia estar engatado, desandou ladeira abaixo e teve perda total no buracão do Palma.

          Junão se assustou e fugiu. O Pedro ficaria sem o Unão. O que fazer? Delatar o Junão para o Pedro acioná-lo judicialmente? Ser X-9 já é feio. X-9 de amigo então... É o fim de qualquer dignidade. Não falar nada para o Pedro também seria complicado. Deixar o amigo sem o Unão e sem explicação também parecia covardia. Eis meu dilema!

          Resolvi sondar o terreno antes de decidir o que fazer ou o que não fazer. Mandei uma mensagem para o Pedro:

          - E aí Pedro, tá em Franca?

          Poucos segundos depois, “Pedro digitando...”

          - Não. Tô em Patrocínio, o Uno tá na oficina limpando o carburador.

 

                                                           Saymon de Oliveira Justo 31/03/2025

quarta-feira, 15 de março de 2023

APRISIONADO

 

 


            Estava tudo planejado para a noite perfeita: tomar 12 gotas de Rivotril e desmaiar até criar calo nos olhos, como dizem. Como não precisaria trabalhar no outro dia, poderia interromper o “ciclo zumbi’ no qual eu vinha vivendo, de acordar as cinco da manhã, passear com meu cachorro Gamow, dar todas as aulas da manhã, todas as aulas da tarde, voltar para casa e escolher entre um banho de 10 minutos ou engolir um pão antes de correr para a faculdade. Tudo isso na esperança de daqui há alguns anos ter uma outra carreira que me permitisse abandonar para sempre esse modo pouco saudável de vida.

            Como na maioria das vezes, as coisas não saíram conforme o planejado. Despertei bem cedo, isso percebi pela claridade típica do nascer do dia que entrava pelas frestas da janela. Nada de excepcional me despertou. Nenhum barulho, vontade de urinar, nem meu cachorro pulando na cama. Nada disso. Teria eu ingerido Rivotril com prazo de validade vencido? Simplesmente despertei, mas em uma condição bastante estranha.

            Pela tênue luz e por não perceber mais minha esposa ao meu lado na cama, deduzi ser por volta de seis horas da manhã. Tentei me virar para pegar o celular e não consegui. Tentei levantar a cabeça do travesseiro e só consegui fazê-lo por alguns centímetros. Meu corpo estava paralisado. Era uma situação desesperadora. Tentei falar e a voz não saia. Mas falar com quem? Com meu cachorro? Não sentia minhas pernas, meu tronco só se movimentava poucos centímetros e com muita dificuldade. Logo me lembrei da tal “síndrome do encarceramento”.

            Após muito esforço mental consegui me levantar, deve ter sido apenas um pesadelo, pensei. Ainda muito sonolento fui ao banheiro, menos pela bexiga cheia e mais para sair completamente do sonho. Mesmo com receio voltei para a cama, não queria desperdiçar as milagrosas gotas do Rivotril e tampouco o dia de folga. Não consigo calcular bem quanto tempo depois, mas acredito que em menos de meia hora despertei novamente na mesma condição, ou ainda pior.

            Dessa vez conseguia mover um pouco o pescoço, balbuciar algumas coisas incompreensíveis, mas no geral meu corpo estava preso à cama. Em uma estranha mistura de desespero e sonolência, tentei ao menos me arrastar até o chão, mas não consegui. Me contorcia, como se em um estado epilético ou de possessão demoníaca. Me vi de cima e a imagem era assustadora: contorcido em estado fetal, com a boca aberta, tentando balbuciar e com saliva escorrendo pelo canto da boca. Passei vários minutos nessa condição deplorável, com a impressão de que estava em um sonho maldito e precisava sair. Consegui.

            Finalmente me levantei da cama, andei até a janela da sala. O tempo estava cinzento, carregado e um insistente chuvisco molhava o dia. Coloquei a cabeça para fora da janela do apartamento e gritei “socorro”. A voz saiu. Mas com que intuito gritei “socorro” na janela? Percebi o absurdo da situação e ainda muito atordoado pelo sono resolvi voltar para cama. Antes peguei o Gamow para colocar ao meu lado, pois assim, posteriormente, poderia ter ao menos algum referencial para distinguir entre sonho e realidade. Deitei novamente, dessa vez com a mão sobre meu cachorro, na esperança de que esse ato me permitisse dormir e ao mesmo tempo não entrar novamente no estado de delírio onírico do qual talvez eu nem tivesse saído ainda.

 

                                                           Saymon de Oliveira Justo (15 de março de 2023)

domingo, 12 de março de 2023

FUGA DO PALMA

 

          Lembro que estava com uma bicicleta estilo “BMX” na entrada do bairro do Palma. O Palma é um bairro que geograficamente podemos chamar de um vale, pois basicamente constitui-se de uma grande descida e uma igualmente grande e íngreme subida, ou vice-versa, dependendo do ponto de vista. Além de ser um bairro feito de casinhas populares, outra interessante particularidade do Palma é a mata ou resquícios dela que fica no meio ou em algumas bordas do bairro.

          Na época desse relato, o bairro pouco tinha se modificado em relação ao seu início, quando procurávamos argila, apostávamos corrida com barro pela cintura ou andávamos pela recente tubulação de esgoto, pela qual corria uma água semi limpa, ou assim acreditávamos.

          Voltando a bicicleta, era uma BMX, uma espécie de bicicross, mas ao contrário da que me recordo ter na primeira infância, que era preta com adesivos vermelhos, essa era cromada. Enfim, encontrava-me na rua de entrada do Palma com a BMX cromada quando vi um grupo de três meninos da minha idade. Ao primeiro olhar lembro de já ter jogado bola com alguns deles no campo da Pracinha, logo na saída do vale que forma parte do Palma. Não precisaram dizer uma palavra sequer, pelo olhar já tive a certeza que queriam tomar minha bicicleta.

          Como profundo conhecedor dos cantos e recantos do Palma, subi na bicicleta e disparei em direção a rua que desce o bairro. Sabia que os meninos não me alcançariam e caso o fizessem, eu conseguiria me esconder em um dos tantos esconderijos que conhecia naquele bairro em formação. Desci em alta velocidade a rua íngreme em plena segurança, pois ao contrário do meu amigo Juninho, não usei o freio da frente na descida.

          Antes da ultima rua dobrei a esquerda e entrei com a bicicleta no pântano. Era um lago grande coberto por algas por cima e de uma encantadora transparência quando submerso. Andei por vários minutos sem respirar por baixo das águas do laguinho, até que sai em uma mata no meio do bairro. Tranquilo, certo de que o Gaguinho (era o nome de um dos garotos) e os outros meninos não me encontrariam, fui me embrenhando na mata até ficar na divisa da “floresta” do Palma com a rua. É estranho, mas entre uma e outra tinha uma espécie de muro de vidro.

          Fiquei ali por minutos, mas em algum momento minha barriga gelou. Eu estava embrenhado na mata, encostado ao vidro que dava para a rua, quando o Gaguinho e os outros meninos apareceram. Entre mim e a rua tinha uma camada de musgo me protegendo, mas pude ver e me assustar quando os meninos colaram os olhos no vidro e me viram com minha BMX. Precisava fugir.

          Rapidamente sai da mata com a bicicleta, mas ela estava sem guidão, melhor, o guidão original tinha desaparecido e só tinha sobrado uma barra de ferro no lugar. Andei dois quarteirões na parte baixa do Palma e me deparei com um bicicleteiro. Mil reais para consertar, mas eu poderia vender a BMX e pegar uma grana antes que ela fosse definitivamente roubada. Preferi arriscar e tentar fugir do Palma.

          Quando cheguei em um muro enorme, com uma pequena portinhola que dava para a saída do Palma, o Gaguinho e os outros meninos me esperavam de forma ameaçadora. Argumentei com toda retórica da luta de classes que não deveriam roubar a bicicleta de alguém da classe trabalhadora. Não deu certo.

 

 

                                       Saymon de Oliveira Justo (12 de março de 2023)


terça-feira, 31 de maio de 2022

O VÉIO DO RIO


 

            Era estranho não sentir dor naquela situação, pois meu pé parecia mais uma massa informe, arroseada pela mistura de sangue e osso. Eu mancava um pouco, mas conseguia andar. Aliás, se não me engano, o pé estourado estava virado para o lado de fora e mais um pouco ficaria parecido com um pé de Curupira. Entre uma alucinação e outra eu me lembrei do poeta Castro Alves, que também tinha dado um tiro no próprio pé. Não me recordava do acidente em si, mas pelo estrago e pela arma que vi ao meu lado quando despertei, era a melhor explicação para o estado no qual me encontrava.

            Me encostei na parede daquele casebre de madeira e fiquei um bom tempo entre sonhos e alucinações, tal qual Raskolnikov após matar a velha da penhora. Sentia medo. Não por conta do estado do meu pé, mas um medo diferente, fruto daquela penumbra que tomava conta do casebre caindo aos pedaços no qual me abrigava. Logo o medo foi se transformando em pavor com o pressentimento de que alguém ou algo estava por aparecer.

            Ainda sentado e encostado na parede vi a porta se abrir e logo me acalmei. Na verdade, mais do que me acalmar, um grande alívio tomou conta do meu espírito quando vi aquela figura maltrapilha, de cabelos brancos, com o cajado na mão. Era Ele, o Véio do Rio. Como estava na forma de véio e não de sucuri, só podia estar ali para me ajudar.

            A luz de fora iluminava aquela figura agora angelical que vinha em minha direção. O Véio abriu um sorriso, certamente iria curar meu pé, me tirar daquela situação. Mas quando caminhava pelo corredor em minha direção, uma porta se abriu a direita do Véio. Durante todo tempo que estive no casebre não havia notado aquela porta, mas agora ela estava ali e se abriu. Era um boteco.

            No mesmo instante em que a porta se abriu o sorriso do Véio se transformou em gargalhada e ele simplesmente me esqueceu. Entrou no boteco dessa realidade paralela e foi beber e dançar com as pessoas que ali se divertiam. Aliás, não era um boteco como os de hoje, aquilo mais parecia um saloon do velho oeste americano e agora o Véio dançava com o próprio cajado entre um copo de pinga e outro.

            Novamente me prostrei no chão. O Véio não sairia dali tão cedo. O estado febril e as alucinações voltaram e em meio a elas aquela sensação de medo, de que alguém chegaria. Dessa vez a porta da frente sequer se abriu. Ela apenas se materializou ali na minha frente. Nunca a tinha visto antes, aliás, sequer sabia da sua existência. Mas tão logo bati o olho naquela senhora enrugada, com vestido todo cinza, tive certeza de quem era. Era a Véia do Rio, e estava com reiva.  

            Mal parecia me notar e logo ficou claro que o problema dela não era comigo, o que me deu certo alivio. A Véia foi entrando no casebre e foi direto para o saloon. Nesse momento senti o forte cheiro de pinga que vinha dali. Foi a última vez que vi a Véia.

            Não sei se eu estava acordado ou alucinando, mas a recordação que tenho é de alguns minutos depois ver o Véio saindo cabisbaixo do saloon. Entre meio bêbado e envergonhado, ele cambaleava apoiado no que parecia ser alguém invisível aos meus olhos, com o cajado flutuando a meio metro de distância, “andando” também ao lado dele.

 

                                                           Saymon de Oliveira Justo (31-05-2022) 


terça-feira, 23 de novembro de 2021

A Coach e o slouch

 


          Estávamos saindo da festa, como eu tinha bebido um pouco não ia voltar dirigindo, na verdade fui sem saber como voltaria. Um amigo do trabalho me ofereceu uma carona, pra mim e pra outra colega, a Mauricia, uma dessas New Coachs que fracassou em quase tudo na vida e após fazer dois dias de curso se julga apta para guiar pessoas no caminho do sucesso nas várias dimensões da existência.

          Como dizem por aí, Mauricia estava “fodida e mal paga”. Recém separada de um casamento frustrado, obrigada a voltar para a casa dos pais e agora Coach Quântica sem nunca ter sequer sentido o cheiro de um livro de Mecânica Quântica, Mauricia tinha uma paixão secreta por Junior, nosso caroneiro.

          Nos planos dela, e até eu assim imaginei, Junior me deixaria em casa e por último deixaria Maurícia, dessa forma poderiam desfrutar de todas as luxúrias possibilitadas pelo alcoolismo. Mauricia era um tanto chata, mas até eu me surpreendi quando Junior a deixou em casa primeiro. A cara de frustração dela foi impagável.

          No banco do carona eu tomava uma Heineken, mas com um rótulo diferente do original. Era um rótulo com tons brancos, mas o principal era o adocicado da cerveja, que fugia do amargor tradicional da Heineken. O sabor se assemelhava inclusive a uma Malzbier.

          Junior me deixou na casa dos meus pais e comentei com ele: “Putz, da hora essa Heineken, não tem aquele amargor desagradável”.

          Na mesma hora Junior tomou a long Neck da minha mão, tacou na parede e tal como um sommelier de cerveja comentou: “a espuma escorre bem, mas não tem slouche, o punch é fraco e não tem camadas de sabores. Mal estruturada”.

 

Saymon de Oliveira Justo  23-11-2021

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

O GRANDE CLÁSSICO

 


- O menino está com febre!

          Eu estava sem camisa, me consumindo no calor, como poderia estar com febre? Mas se minha mãe colocava uma coisa na cabeça não tinha Cristo que a demovesse. Ela iria perturbar a casa inteira até tirar todo mundo da cama em plena madrugada.

          Já beirava às 4 da madrugada, eu me sentia muito bem, apenas incomodado com o escaldante calor de um setembro sem chuvas. Mas na cabeça dela, mesmo com o termômetro dizendo o contrário, eu estava com febre.

          Todos na casa acordaram, eu, que já não conseguira dormir por conta do calor, minha irmã por causa do pandemônio e meu pai, que em poucas horas precisaria sair para o trabalho e perdeu sua noite de descanso.

          Me sentei na cadeira da cozinha, meu pai vestia uma camisa, observei uma mancha muito escura em sua barriga. Como eu era praticamente um médico, pois assisti várias vezes todas as temporadas de House, logo diagnostiquei uma necrose. Me assustei, falei pra ele procurar de imediato um médico. Mas ele disse que não era nada e para minha surpresa passou a mão sobre a tal necrose e limpou como se fosse um bolor.

          Passou mais um tempo, minha mãe gritando pela casa “o menino está com febre”, minha irmã querendo dormir e meu pai estranhamente ainda trocando a camisa. Outra necrose enorme nas costas. Novamente insisti na necessidade de correr ao médico com urgência, pois em alguns episódios de House já tinha visto pessoas perderem dedo, braço e até perna por necrose. Mas ele novamente disse que não era nada. Só puxou uma ponta e o que parecia necrose na verdade era uma escama de peixe preto que se descolou e revelou a pele integra por baixo.

          Minha mãe ainda insistia na febre, mas meu pai e eu estávamos sentados na mesa da cozinha. O relógio marcava 4 da manhã. Ligamos a TV e Palmeiras e Corinthians jogavam ao vivo valendo vaga para alguma fase de algum campeonato.

          Apesar da seca de setembro, o campo estava encharcado pela chuva e o jogo corria sério risco de ser paralisado. O placar marcava 1x1 e faltavam uns 20 minutos para acabar o segundo tempo. Minha mãe falava da tal febre inexistente, meu pai e eu assistíamos ao clássico e minha irmã dormia apoiada na mesa.

          Palmeiras no ataque, pela esquerda, o defensor corintiano puxa a camisa do atacante alviverde e não sei por qual lei física consegue tirar toda a roupa do palmeirense. O jogador do Palmeiras ficou totalmente nu em campo, tentou pegar o uniforme, mas outro atleta corintiano pegou as roupas e saiu correndo pelo campo e rindo debochadamente.

          Nesse ponto o árbitro paralisou a partida. Passaram-se alguns minutos, tudo foi se ajeitando, o juiz voltou com a bola na mão. O risco de paralisar a partida por conta do gramado encharcado era grande. Minha mãe falava da febre. Eu já tinha esquecido a necrose e juntamente com meu pai torcíamos para o prosseguimento da partida e a expulsão dos atletas corintianos, o que puxou o uniforme e o que saiu correndo com ele.

          Volta o árbitro com a bola na mão. Gramado parecendo um brejo. Toda pinta de paralisar a partida. Minha mãe falando de febre. Ansiedade. Meu pai e eu fixados na TV. O árbitro tira o cartão vermelho do bolso e expulsa os dois jogadores corintianos.

          Segue o jogo!!!

 

 

                                       Saymon de Oliveira Justo 20 de setembro de 2021

 

 


domingo, 25 de abril de 2021

Chuck e eu

 

                                


                                          

            Confesso que senti um frio na barriga quando abri o embrulho deixado pelos Correios. Sempre fui bastante cético e racional, mas abrir aquele pacote que eu não havia pedido e me deparar com um boneco Bonzinho, foi no mínimo estranho. Seja por conta da saga do Brinquedo Assassino, seja pela forma estranha que chegou às minhas mãos, confesso que pensei em me desfazer o mais rápido possível daquele brinquedo, porém, como cético convicto, não poderia me dobrar a impressões infantis.

            Deixei a caixa com o Bonzinho em um canto qualquer e voltei aos meus não poucos afazeres. Mas, por ridículo que pareça, sempre me surpreendia olhando para o boneco a procura de algum movimento das mãos, algum olhar, enfim, algo que denunciasse que aquele artefato de pano e plástico poderia abrigar a alma do tal assassino  Charles Lee Ray.

            Pensei em tirar o plástico da caixa, verificar se o Bonzinho estava com pilhas, passou pela minha cabeça inclusive guardá-lo no cofre forte. Mas não, um admirador de Einstein como eu não poderia cultivar esse ridículo nem no anonimato da própria mente. Depois do trabalho simplesmente desabei no sofá e adormeci.

            Não tenho idéia de quanto tempo dormi, só me recordo de acordar com um inesperado barulho de plástico. Achei que podia ser a TV, mas essa estava desligada. Ainda sonolento consegui firmar o olhar naquela já conhecida figura. Sim, por inacreditável que pareça Chuck estava ali, em pé, na minha frente. Aquela horripilante figura de cabelos vermelhos, com seus frios olhos azuis e aquela inconfundível e infernal risada, segurava uma faca quase maior que o próprio corpo.

            Pensei que podia estar mergulhado em um pesadelo, mas logo me dei conta que era o Chuck e não o Freddy. Levantei-me vagarosamente, atento a cada movimento do Bonzinho. Ele caminhava em minha direção. Faca em punho, “seremos amigos para sempre”, me dizia cinicamente. Conforme aprendi nos filmes, a única solução possível seria correr. Quando me preparava para sair em direção à porta Chuck tropeçou em um livro e estatelou no chão. Era minha chance de fugir.

            Resolvi fazer diferente. Não estava disposto a passar dias sendo coagido por aquele boneco patético. Coloquei em prática um plano que sempre cultivei quando assistia a saga do Brinquedo Assassino. Aliás, sempre me perguntei por que o Andy e outros atormentados não faziam algo mais simples do que correr.

            Primeiramente pisei no pescoço do Chuck, impedindo que ele alcançasse a faca. Como imaginei inúmeras vezes, realmente aqueles 1,5 kg de plástico e alma penada não teriam força para derrubar meus 80 kg cultivados a base de Coca Cola e carne assada. Abaixei-me e peguei o Chuck pelo pescoço, olhando diretamente nas profundezas dos olhos daquele demônio.

            Ele xingava, blasfemava, ameaçava e até tentava dar socos e chutes com aquelas perninhas e braços ridículos. Mas o máximo que acontecia, quando chegavam a tocar meu peito, era me deixar ainda mais irritado. Mesmo assim, como já tinha assistido todos os filmes, resolvi não facilitar e levei o boneco para minha oficina.

            Deitei o Chuck no cepo de madeira em cima da bancada de trabalho e com a outra mão empunhei a furadeira. O furo foi bem no local do umbigo, se é que aquela criatura tinha um. Ele gritou um bocado e uma mistura nojenta de sangue e plástico espirrou na minha blusa. Chuck esperneava, xingava, me ameaçava, mas pouco podia fazer diante daquela situação que lhe era tão desfavorável.

            Quando o parafusei firmemente no cepo sua atitude mudou. Os olhos azuis se tornaram angelicais, ele se desculpava, dizia que era um Bonzinho e que “seríamos amigos para sempre”. Aquilo me cortou o coração. Resolvi dar uma chance para ele, mas não antes de tomar minhas precauções.

            Com uma serrinha resolvi amputar as perninhas do Chuck, assim ele não cairia na tentação de correr atrás de mim. Ele urrava de dor, dizia palavrões do arco da velha, mas tudo aquilo era para o bem de nossa amizade. Novamente a mistura de sangue e plástico saia dos cortes. Não entendo muito da fisiologia de bonecos com alma encarnada, mas mesmo parecendo que o plástico agiria como coagulante, resolvi zelar o máximo possível pela vida do Chuck e com um maçarico queimei as extremidades de onde antes estavam as perninhas, para que assim, ele não se esvaísse em sangue.

            Quando achei que estava tudo resolvido e poderia soltar meu amigo Chuck, me lembrei da clássica cena dele com aquelas faquinhas enfiadas na mão e ameaçando geral. Era preciso amputar os braços. Com dor no coração, fiz o mesmo procedimento que havia feito nas pernas. Chuck novamente gritou e xingou bastante, mas era preciso.

            Ao final, depois de devidamente cauterizado com o maçarico, Chuck ou Charles Lee, se tornou um belo e inofensivo “tronco e cabeça”. Mas mesmo assim não achei prudente simplesmente solta-lo. Vai saber né?

            Hoje Chuck vive feliz em uma gaiola projetada especialmente para ele e que fica dependurada na parede do meu quarto. Como não tem pernas e nem braços, não preciso me preocupar muito com a possibilidade de fuga. Mas ele xingava muito. No começo eu até achava engraçado, mas começou a me irritar um pouco e então resolvi costurar a boca do Chuck com linha de sapateiro. Hoje ele fica ali e me acalma muito deitar e ficar olhando para seus doces olhos azuis.

 

Saymon de Oliveira Justo      26/04/2021

               

sexta-feira, 16 de abril de 2021

EXPERIMENTO 017

 


                                                     

                                             RELATÓRIO DE ATIVIDADES

 

1º dia. Depois de capturados, os oito exemplares da espécie destinados à pesquisa foram submetidos aos exames de rotina, os quais demonstraram que todos os indivíduos estavam perfeitamente saudáveis e aptos para os experimentos.

            Colocados em jaulas individuais, foram devidamente higienizados e alimentados.


2º dia. Os indivíduos foram divididos em dois grupos, “Grupo A” e “Grupo B”. Cada grupo formado por dois exemplares machos e duas fêmeas. Todos os indivíduos tomaram suplementos alimentares para em dez dias estarem nas melhores condições possíveis para o início dos testes.


12º dia. Salvo algumas escoriações causadas por se debaterem nas jaulas e o estresse natural do confinamento, todos os indivíduos apresentaram boas condições físicas e foram considerados aptos para o início dos testes.

            Os indivíduos do “Grupo A” foram retirados das jaulas e levados para o laboratório. Cada espécime recebeu uma “Coleira de Controle”, de forma que não atrapalhasse a respiração, mas impossibilitasse tentativas de fuga.

            Cada indivíduo foi colocado em uma esteira e uma corrente foi presa à coleira de cada um e ao gancho no teto do laboratório. Apesar de impedir que a cobaia saia da esteira, a corrente permite os movimentos necessários ao teste.

            Eletrodos de voltagem controlável foram colocados nos indivíduos para que sirvam de estimulo para que cumpram o que deles se espera.

            Colocados em movimento pela esteira, três começaram a caminhar normalmente. O indivíduo A1 (fêmea), no entanto, inicialmente se recusou a andar, mesmo ficando em posição bastante desconfortável, caído e com a esteira girando por baixo de seu corpo. Porém, após três cargas consecutivas de choques de média intensidade o A1 se colocou em movimento.

            Após o início da caminhada na esteira os quatro indivíduos foram submetidos a doses leves de radiação (doses U1), mas conseguiram caminhar por 1 hora sem sintomas.


13º dia. Os indivíduos do “Grupo A” foram submetidos novamente ao teste do dia anterior, contudo, dessa vez submetidos a dose U2 de radiação.

            Após meia hora de teste o macho A3 começou a apresentar cansaço, suores excessivos e ofegava mais que os outros. Deixou-se cair na esteira, mesmo preso ao pescoço. Porém, após receber choques elétricos por duas vezes, se colocou de pé e concluiu o teste com êxito.


14º dia. O “Grupo A” foi submetido novamente aos testes, dessa vez com doses U3 de radiação. Após resistência inicial de todos antes do início dos testes, quando submetidos a choques moderados passaram a se mostrar mais cooperativos.

            Dessa vez, na primeira meia hora de esteira os indivíduos A1, A3 e A4 apresentaram cansaço excessivo e vômitos. Porém, com os estímulos elétricos, mesmo com dificuldades conseguiram concluir a hora de teste. O indivíduo A2 apresentou apenas cansaço excessivo.


14º ao 25º dia. O “Grupo A” foi submetido diariamente ao mesmo teste, agora sempre com radiação moderada U3, por 1 hora ao dia.

            A partir da primeira meia hora todos os indivíduos passaram a apresentar cansaço excessivo e vômitos, mas com os estímulos por choques elétricos todos conseguiram terminar os testes.

            No 28º dia os indivíduos A1 e A4 apresentaram anemia e déficit de glóbulos brancos, tendo que ser sacrificados. Os indivíduos A2 e A3 apresentaram prostração, vômitos persistentes, mas sem maiores problemas. Foram sacrificados apenas por se encontrarem contaminados.


15º dia. Os indivíduos do “Grupo B” foram submetidos aos mesmos testes que os indivíduos do “Grupo A”. Todos os parâmetros foram mantidos, apenas as doses de radiação foram modificadas.

            Os testes foram iniciados com radiação de dosagem U4. A partir do minuto 40 todos os indivíduos apresentaram cansaço excessivo, sendo que a fêmea B1 e o macho B4 apresentaram vômitos. Porém, com os estímulos elétricos todos conseguiram terminar o teste.


16º dia. O “Grupo B” iniciou os testes novamente com U4 de radiação. Já nos primeiros 20 minutos todos apresentaram cansaço excessivo e o macho B4 vômitos. Mesmo com três estímulos elétricos o B4 não se levantou. Permaneceu caído, pendurado pelo pescoço e com fortes vômitos. Quando ia ser retirado da esteira teve parada cardíaca e faleceu.

            Os outros três indivíduos tiveram fortes crises de vômitos, caíram algumas vezes, mas com os choques elétricos conseguiram concluir os testes.


 17º dia. Iniciamos o teste com radiação U5. Nos primeiros 35 minutos todos os indivíduos já tinham apresentado cansaço excessivo e fortes vômitos. Mesmo submetidos aos estímulos por choques elétricos, não conseguiram terminar o teste. Até o minuto 45 estavam todos prostrados na esteira, com fortes vômitos, sangramentos nasais e forte confusão mental.


18º dia. Tentamos recuperar os indivíduos para mais um dia de teste. Receberam medicação, suplemento de vitaminas e cuidados paliativos. Entretanto, a fêmea B1 não resistiu.

            Mantidos os parâmetros do dia anterior, com radiação U5, o macho B2 e a fêmea B3 caíram já no minuto 15. Nem mesmo com cincos ciclos de choques elétricos fortes os indivíduos se levantaram. Permaneceram caídos nas esteiras, pendurados pelo pescoço e com crises incontroláveis de vômitos. Apresentaram também forte sangramento nasal.

            Mostrando-se claramente inaptos para novos testes, os exemplares foram sacrificados.

 

                                           CONCLUSÕES PRELIMINARES

 

            Os resultados dos testes nos permitem concluir que a espécie humana é biologicamente apta para remoção de detritos em territórios contaminados. Dessa forma, por razões econômicas, concluímos ser mais viável utilizar o grande estoque disponível de humanos do que os mais escassos habitantes quadrimãos do Planeta 3 do Sistema de Capella.

            Em áreas com radiação até U3 os humanos conseguem trabalhar bem por até 1 hora/dia durante 20 dias. Depois disso devem ser sacrificados, pois a radiação acumulada no organismo os torna inviáveis.

            Em áreas com radiação U4 e U5 os humanos podem ser utilizados por até 20 minutos/dia, mas por apenas 5 dias, devendo ser descartados ao final desse prazo.

            No que toca a considerações econômicas, sugerimos enfaticamente a criação de “Fazendas de Humanos”, com criação intensiva, pois é até agora a forma mais viável de remoção de detritos radioativos para áreas que pretendemos colonizar no planeta Terra.

 

Comissão Científica para Colonização da Terra. Ano III