- O menino está com febre!
Eu
estava sem camisa, me consumindo no calor, como poderia estar com febre? Mas se
minha mãe colocava uma coisa na cabeça não tinha Cristo que a demovesse. Ela
iria perturbar a casa inteira até tirar todo mundo da cama em plena madrugada.
Já
beirava às 4 da madrugada, eu me sentia muito bem, apenas incomodado com o escaldante
calor de um setembro sem chuvas. Mas na cabeça dela, mesmo com o termômetro dizendo
o contrário, eu estava com febre.
Todos
na casa acordaram, eu, que já não conseguira dormir por conta do calor, minha
irmã por causa do pandemônio e meu pai, que em poucas horas precisaria sair
para o trabalho e perdeu sua noite de descanso.
Me
sentei na cadeira da cozinha, meu pai vestia uma camisa, observei uma mancha
muito escura em sua barriga. Como eu era praticamente um médico, pois assisti
várias vezes todas as temporadas de House,
logo diagnostiquei uma necrose. Me assustei, falei pra ele procurar de imediato
um médico. Mas ele disse que não era nada e para minha surpresa passou a mão
sobre a tal necrose e limpou como se fosse um bolor.
Passou
mais um tempo, minha mãe gritando pela casa “o
menino está com febre”, minha irmã querendo dormir e meu pai estranhamente
ainda trocando a camisa. Outra necrose enorme nas costas. Novamente insisti na
necessidade de correr ao médico com urgência, pois em alguns episódios de House já tinha visto pessoas perderem
dedo, braço e até perna por necrose. Mas ele novamente disse que não era nada.
Só puxou uma ponta e o que parecia necrose na verdade era uma escama de peixe
preto que se descolou e revelou a pele integra por baixo.
Minha
mãe ainda insistia na febre, mas meu pai e eu estávamos sentados na mesa da
cozinha. O relógio marcava 4 da manhã. Ligamos a TV e Palmeiras e Corinthians
jogavam ao vivo valendo vaga para alguma fase de algum campeonato.
Apesar
da seca de setembro, o campo estava encharcado pela chuva e o jogo corria sério
risco de ser paralisado. O placar marcava 1x1 e faltavam uns 20 minutos para
acabar o segundo tempo. Minha mãe falava da tal febre inexistente, meu pai e eu
assistíamos ao clássico e minha irmã dormia apoiada na mesa.
Palmeiras
no ataque, pela esquerda, o defensor corintiano puxa a camisa do atacante
alviverde e não sei por qual lei física consegue tirar toda a roupa do palmeirense.
O jogador do Palmeiras ficou totalmente nu em campo, tentou pegar o uniforme,
mas outro atleta corintiano pegou as roupas e saiu correndo pelo campo e rindo
debochadamente.
Nesse
ponto o árbitro paralisou a partida. Passaram-se alguns minutos, tudo foi se
ajeitando, o juiz voltou com a bola na mão. O risco de paralisar a partida por
conta do gramado encharcado era grande. Minha mãe falava da febre. Eu já tinha
esquecido a necrose e juntamente com meu pai torcíamos para o prosseguimento da
partida e a expulsão dos atletas corintianos, o que puxou o uniforme e o que
saiu correndo com ele.
Volta
o árbitro com a bola na mão. Gramado parecendo um brejo. Toda pinta de
paralisar a partida. Minha mãe falando de febre. Ansiedade. Meu pai e eu
fixados na TV. O árbitro tira o cartão vermelho do bolso e expulsa os dois jogadores
corintianos.
Segue
o jogo!!!
Saymon
de Oliveira Justo 20 de setembro de 2021

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