Acordei,
fui direto à cozinha e me deparei com aquele recipiente sobre a mesa. Não me
recordo quem estava na cozinha e nem quem me contou qual a natureza daquela
estranha iguaria. Era um pote de vidro transparente, bastante parecido com
aqueles potes que usamos para colocar doce ou balas. No interior brilhava um
líquido de um marrom-avermelhado, de aparência viscosa. Imersas no líquido,
estranhas esferas escuras, de um marrom quase preto, semelhantes a uvas passas,
mas arredondadas com mais esmero. “Mel de barata”, me disseram.
Mais
que o caráter surreal da situação, o que reavivou em minha alma foi o antigo
pavor dessas criaturas. Logo me veio à memória o cheiro e a repugnância que
sentia na infância quando via meu pai limpar uma caixa de esgoto de nossa
antiga casa e logo se formar um tapete marrom de baratas. Não é exatamente
medo. É uma mistura de repugnância, com horror, terror, pavor. Lembro até hoje
do começo de “Almas Mortas”, do
Gogol, onde ele descreve um quarto de hospedaria com baratas, saindo por todos
os cantos, parecidas com ameixas secas.
Na
hora nem me preocupei com questionamentos científicos acerca da capacidade de
baratas produzirem mel. Aliás, pensando agora, se o produzissem acredito que
não seria nada parecido com o que eu vi naquele vidro, mas sim algo mais
próximo daquela gosma branca que vemos quando uma barata é esmagada. Enfim,
procurei me afastar o máximo possível daquele pote.
Era
estranho, não sei o que acontecia, mas eu não consegui sair daquela cozinha. Algo
me mantinha no cômodo, apesar do desejo de sair até da casa. Perplexidade?
Terror que paralisa? Alguma força metafísica? Sinceramente não sei, mas o fato
é que o que viria a seguir seria ainda mais estranho e ainda menos crível.
Alguém,
e novamente não me lembro quem, mesmo porque não me lembro do rosto de ninguém
naquela cozinha, alguém abriu o pote e com uma colher tirou a até então
inofensiva esfera marrom quase preta de dentro do líquido. Colocada sobre a
mesa, não sei se por conta do contato com algum elemento químico da nossa
atmosfera, a estranha esfera começou a crescer e tomar forma.
Quanto
mais crescia mais ganhava contornos definidos, traços, forma. Em poucos
segundos um estranho cachorro que não era cachorro, aliás, era mais parecido
com um Demônio da Tasmânia, se formou por sobre a mesa. De pelagem marrom, aparentando
uma aspereza encardida, o bicho por si só já era assustador, mas não repugnante.
Porém, só de saber que aquela infernal criatura poderia ser uma metamorfose de
uma barata, como diria Kafka, me causou profundo terror.
Na
verdade a criatura era ainda mais aterrorizante em sua nova forma, pois podia
correr.
Saymon de Oliveira Justo
Ano II da Pandemia. 22 de março de 2021

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