Recordo-me de descer do avião e alguém
me dizer que tínhamos acabado de aterrissar em Fortaleza. Minhas memórias começam ali, não me lembro de
ter comprado passagem, ido ao aeroporto e nem do voo em si. Sei que não viajava
sozinho, mas tampouco me recordo quem estava comigo. Vagamente acho que vi meu
pai em algum momento após sair do Aeroporto, mas mesmo essa lembrança é pouco
nítida.
Minha
memória sobre os eventos que por hora relato assemelha-se mais a um álbum de
fotografias do que a um filme. E mesmo assim, existem enormes lacunas entre uma
foto e outra. Das escadas do avião já me vejo na praia. Ah, a praia! O mar do
Nordeste! Era um sonho que se tornava realidade. Sempre fui encantado pelo mar,
mas o mar do Nordeste, aquele imensidão aberta para o mundo, aquilo me tocava
profundamente.
Mas
o que vi era bastante distante do mar dos meus sonhos, do que tinha visto em
fotos e filmes. Eu esperava algo parecido com Mangue Seco, que tanto me encantou quando criança na novela Tieta. Aquilo era decepcionante. Era
mais um canal, uma espécie de entrada e saída de porto. A água tinha o verde
dos meus sonhos, a areia era fina e branca como eu imaginava, mas não tinha
ondas e tampouco eu me senti aberto para o mundo.
Resolvi
caminhar. Certamente as praias paradisíacas, sombreadas por coqueiros, com os
pitorescos barcos dos pescadores, estariam mais a frente. Conforme
eu andava a decepção só crescia. As praias amplas e os coqueiros até
apareceram, mas aquilo mais parecia uma represa. Onde estavam as ondas?
As
pessoas que estavam comigo pareciam felizes, falavam de como era bom aquele mar
calmo, parecendo uma piscina. Sinceramente nunca entendi isso. O que é uma
praia sem a eterna luta entre a terra e o oceano, sem a violência das ondas
quebrando na praia, sem a “cabeça loura
das ondas”, como dizia Castro Alves? Não, não, aquele não podia ser o mar
do Nordeste.
Nesse
ponto uma nova lacuna aparece no álbum das minhas recordações. Só me lembro que
olhei para o céu e vi aquela imagem pavorosa, aquele artefato maldito que me aterrorizava
desde criança, aquela besta saída das profundezas do inferno. Era a Bomba Atômica.
Vi-a chegando, lentamente, como o prólogo do pior dos pesadelos. Mais que a
explosão em si, o que sempre me aterrorizou era o poder invisível da radiação,
a morte dolorosa que aquela energia libertada do âmago da matéria carregava. Pensei
em correr, me afastar o máximo possível do centro da explosão.
Não
sei bem o que aconteceu nesse momento, mas um jovem ao meu lado começou falar
que aquilo era culpa da China, que ele sabia de tudo. Vi o clarão da explosão,
pensei em fugir, mas preferi ficar e argumentar que aquilo certamente era coisa
dos americanos.
Saymon
de Oliveira Justo
31/03/2021

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