domingo, 12 de março de 2023

FUGA DO PALMA

 

          Lembro que estava com uma bicicleta estilo “BMX” na entrada do bairro do Palma. O Palma é um bairro que geograficamente podemos chamar de um vale, pois basicamente constitui-se de uma grande descida e uma igualmente grande e íngreme subida, ou vice-versa, dependendo do ponto de vista. Além de ser um bairro feito de casinhas populares, outra interessante particularidade do Palma é a mata ou resquícios dela que fica no meio ou em algumas bordas do bairro.

          Na época desse relato, o bairro pouco tinha se modificado em relação ao seu início, quando procurávamos argila, apostávamos corrida com barro pela cintura ou andávamos pela recente tubulação de esgoto, pela qual corria uma água semi limpa, ou assim acreditávamos.

          Voltando a bicicleta, era uma BMX, uma espécie de bicicross, mas ao contrário da que me recordo ter na primeira infância, que era preta com adesivos vermelhos, essa era cromada. Enfim, encontrava-me na rua de entrada do Palma com a BMX cromada quando vi um grupo de três meninos da minha idade. Ao primeiro olhar lembro de já ter jogado bola com alguns deles no campo da Pracinha, logo na saída do vale que forma parte do Palma. Não precisaram dizer uma palavra sequer, pelo olhar já tive a certeza que queriam tomar minha bicicleta.

          Como profundo conhecedor dos cantos e recantos do Palma, subi na bicicleta e disparei em direção a rua que desce o bairro. Sabia que os meninos não me alcançariam e caso o fizessem, eu conseguiria me esconder em um dos tantos esconderijos que conhecia naquele bairro em formação. Desci em alta velocidade a rua íngreme em plena segurança, pois ao contrário do meu amigo Juninho, não usei o freio da frente na descida.

          Antes da ultima rua dobrei a esquerda e entrei com a bicicleta no pântano. Era um lago grande coberto por algas por cima e de uma encantadora transparência quando submerso. Andei por vários minutos sem respirar por baixo das águas do laguinho, até que sai em uma mata no meio do bairro. Tranquilo, certo de que o Gaguinho (era o nome de um dos garotos) e os outros meninos não me encontrariam, fui me embrenhando na mata até ficar na divisa da “floresta” do Palma com a rua. É estranho, mas entre uma e outra tinha uma espécie de muro de vidro.

          Fiquei ali por minutos, mas em algum momento minha barriga gelou. Eu estava embrenhado na mata, encostado ao vidro que dava para a rua, quando o Gaguinho e os outros meninos apareceram. Entre mim e a rua tinha uma camada de musgo me protegendo, mas pude ver e me assustar quando os meninos colaram os olhos no vidro e me viram com minha BMX. Precisava fugir.

          Rapidamente sai da mata com a bicicleta, mas ela estava sem guidão, melhor, o guidão original tinha desaparecido e só tinha sobrado uma barra de ferro no lugar. Andei dois quarteirões na parte baixa do Palma e me deparei com um bicicleteiro. Mil reais para consertar, mas eu poderia vender a BMX e pegar uma grana antes que ela fosse definitivamente roubada. Preferi arriscar e tentar fugir do Palma.

          Quando cheguei em um muro enorme, com uma pequena portinhola que dava para a saída do Palma, o Gaguinho e os outros meninos me esperavam de forma ameaçadora. Argumentei com toda retórica da luta de classes que não deveriam roubar a bicicleta de alguém da classe trabalhadora. Não deu certo.

 

 

                                       Saymon de Oliveira Justo (12 de março de 2023)


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