Lembro
que estava com uma bicicleta estilo “BMX” na entrada do bairro do Palma. O
Palma é um bairro que geograficamente podemos chamar de um vale, pois
basicamente constitui-se de uma grande descida e uma igualmente grande e
íngreme subida, ou vice-versa, dependendo do ponto de vista. Além de ser um
bairro feito de casinhas populares, outra interessante particularidade do Palma
é a mata ou resquícios dela que fica no meio ou em algumas bordas do bairro.
Na
época desse relato, o bairro pouco tinha se modificado em relação ao seu início,
quando procurávamos argila, apostávamos corrida com barro pela cintura ou andávamos
pela recente tubulação de esgoto, pela qual corria uma água semi limpa, ou
assim acreditávamos.
Voltando
a bicicleta, era uma BMX, uma espécie de bicicross, mas ao contrário da que me
recordo ter na primeira infância, que era preta com adesivos vermelhos, essa
era cromada. Enfim, encontrava-me na rua de entrada do Palma com a BMX cromada
quando vi um grupo de três meninos da minha idade. Ao primeiro olhar lembro de já
ter jogado bola com alguns deles no campo da Pracinha, logo na saída do vale
que forma parte do Palma. Não precisaram dizer uma palavra sequer, pelo olhar
já tive a certeza que queriam tomar minha bicicleta.
Como
profundo conhecedor dos cantos e recantos do Palma, subi na bicicleta e
disparei em direção a rua que desce o bairro. Sabia que os meninos não me
alcançariam e caso o fizessem, eu conseguiria me esconder em um dos tantos
esconderijos que conhecia naquele bairro em formação. Desci em alta velocidade
a rua íngreme em plena segurança, pois ao contrário do meu amigo Juninho, não
usei o freio da frente na descida.
Antes
da ultima rua dobrei a esquerda e entrei com a bicicleta no pântano. Era um
lago grande coberto por algas por cima e de uma encantadora transparência
quando submerso. Andei por vários minutos sem respirar por baixo das águas do
laguinho, até que sai em uma mata no meio do bairro. Tranquilo, certo de que o Gaguinho
(era o nome de um dos garotos) e os outros meninos não me encontrariam, fui me
embrenhando na mata até ficar na divisa da “floresta” do Palma com a rua. É estranho,
mas entre uma e outra tinha uma espécie de muro de vidro.
Fiquei
ali por minutos, mas em algum momento minha barriga gelou. Eu estava embrenhado
na mata, encostado ao vidro que dava para a rua, quando o Gaguinho e os outros meninos
apareceram. Entre mim e a rua tinha uma camada de musgo me protegendo, mas pude
ver e me assustar quando os meninos colaram os olhos no vidro e me viram com
minha BMX. Precisava fugir.
Rapidamente
sai da mata com a bicicleta, mas ela estava sem guidão, melhor, o guidão
original tinha desaparecido e só tinha sobrado uma barra de ferro no lugar.
Andei dois quarteirões na parte baixa do Palma e me deparei com um bicicleteiro.
Mil reais para consertar, mas eu poderia vender a BMX e pegar uma grana antes
que ela fosse definitivamente roubada. Preferi arriscar e tentar fugir do
Palma.
Quando
cheguei em um muro enorme, com uma pequena portinhola que dava para a saída do Palma,
o Gaguinho e os outros meninos me esperavam de forma ameaçadora. Argumentei com
toda retórica da luta de classes que não deveriam roubar a bicicleta de alguém
da classe trabalhadora. Não deu certo.
Saymon
de Oliveira Justo (12 de março de 2023)

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