quarta-feira, 15 de março de 2023

APRISIONADO

 

 


            Estava tudo planejado para a noite perfeita: tomar 12 gotas de Rivotril e desmaiar até criar calo nos olhos, como dizem. Como não precisaria trabalhar no outro dia, poderia interromper o “ciclo zumbi’ no qual eu vinha vivendo, de acordar as cinco da manhã, passear com meu cachorro Gamow, dar todas as aulas da manhã, todas as aulas da tarde, voltar para casa e escolher entre um banho de 10 minutos ou engolir um pão antes de correr para a faculdade. Tudo isso na esperança de daqui há alguns anos ter uma outra carreira que me permitisse abandonar para sempre esse modo pouco saudável de vida.

            Como na maioria das vezes, as coisas não saíram conforme o planejado. Despertei bem cedo, isso percebi pela claridade típica do nascer do dia que entrava pelas frestas da janela. Nada de excepcional me despertou. Nenhum barulho, vontade de urinar, nem meu cachorro pulando na cama. Nada disso. Teria eu ingerido Rivotril com prazo de validade vencido? Simplesmente despertei, mas em uma condição bastante estranha.

            Pela tênue luz e por não perceber mais minha esposa ao meu lado na cama, deduzi ser por volta de seis horas da manhã. Tentei me virar para pegar o celular e não consegui. Tentei levantar a cabeça do travesseiro e só consegui fazê-lo por alguns centímetros. Meu corpo estava paralisado. Era uma situação desesperadora. Tentei falar e a voz não saia. Mas falar com quem? Com meu cachorro? Não sentia minhas pernas, meu tronco só se movimentava poucos centímetros e com muita dificuldade. Logo me lembrei da tal “síndrome do encarceramento”.

            Após muito esforço mental consegui me levantar, deve ter sido apenas um pesadelo, pensei. Ainda muito sonolento fui ao banheiro, menos pela bexiga cheia e mais para sair completamente do sonho. Mesmo com receio voltei para a cama, não queria desperdiçar as milagrosas gotas do Rivotril e tampouco o dia de folga. Não consigo calcular bem quanto tempo depois, mas acredito que em menos de meia hora despertei novamente na mesma condição, ou ainda pior.

            Dessa vez conseguia mover um pouco o pescoço, balbuciar algumas coisas incompreensíveis, mas no geral meu corpo estava preso à cama. Em uma estranha mistura de desespero e sonolência, tentei ao menos me arrastar até o chão, mas não consegui. Me contorcia, como se em um estado epilético ou de possessão demoníaca. Me vi de cima e a imagem era assustadora: contorcido em estado fetal, com a boca aberta, tentando balbuciar e com saliva escorrendo pelo canto da boca. Passei vários minutos nessa condição deplorável, com a impressão de que estava em um sonho maldito e precisava sair. Consegui.

            Finalmente me levantei da cama, andei até a janela da sala. O tempo estava cinzento, carregado e um insistente chuvisco molhava o dia. Coloquei a cabeça para fora da janela do apartamento e gritei “socorro”. A voz saiu. Mas com que intuito gritei “socorro” na janela? Percebi o absurdo da situação e ainda muito atordoado pelo sono resolvi voltar para cama. Antes peguei o Gamow para colocar ao meu lado, pois assim, posteriormente, poderia ter ao menos algum referencial para distinguir entre sonho e realidade. Deitei novamente, dessa vez com a mão sobre meu cachorro, na esperança de que esse ato me permitisse dormir e ao mesmo tempo não entrar novamente no estado de delírio onírico do qual talvez eu nem tivesse saído ainda.

 

                                                           Saymon de Oliveira Justo (15 de março de 2023)

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