quinta-feira, 25 de março de 2021

O HOMEM BOM

                                                       

                    


                                                                       vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas                                                                                                     perderam o medo e as melhores perderam a                                                                                                    esperança” (Hanna Arendt)

 

                                Como era bom sentir aquela sensação, pensou o homem ao descer as escadas para tomar o café da manhã com a esposa e os filhos. O ano anterior tinha sido bastante complicado. Geralmente, nesta hora da manhã ele e a esposa já estavam brigando por conta da falta de dinheiro até para comprar comida. Quando não, nessa mesma hora ele estava chegando em casa de uma bebedeira na cervejaria do bairro, pois para essas necessidades primordiais o dinheiro sempre aparecia.     

            Mas agora ele descia orgulhoso as escadas. O uniforme novo lhe caia muito bem, conferia a dignidade necessária perante os filhos e a esposa. O cabelo bem cortado, a barba feita e o frescor da loção de barbear impregnavam a casa com o otimismo dos novos tempos.

            Beijou ternamente o rosto da esposa, afagou a cabeça das crianças e se sentou á mesa para o café. A claridade dessa hora da manhã, o perfume do café e do chá, o cheiro de pão recém assado, traziam á mente sua infância no lar paterno. Desde que entrara para o Partido e conseguira o novo emprego, sentia a agradável simetria de ser o chefe de família que seu falecido pai havia sido.

            Alheio ao que os filhos conversavam, tomava seu café enquanto o pensamento se voltava para as crianças do orfanato que ele e a esposa haviam visitado na tarde anterior. Aqueles olhinhos desconfiados, que mesmo quando sorriam carregavam uma tristeza permanente, eram como um punhal em sua alma. Mesmo não tendo ainda condições de adotar mais uma criança, lhe dava certo conforto as visitas que faziam mensalmente às crianças orfanato. Sempre levavam bolo.

            O toque da campainha desfez seus pensamentos e o lembrou que já estava atrasado para o trabalho. O dia seria cheio, aliás, todos eram. Mas apesar do cansaço físico, sua alma estava leve, não apenas pela segurança de agora poder prover adequadamente o sustento da família como também pela sensação de que, para além disso, trabalhava pelo seu país, por seu povo. Assim vivem os homens bons e ele, agora, se sentia um homem bom.

            Beijou a esposa, prometeu que chegaria mais cedo e lhe levaria ao teatro à noite. Antes de sair de casa olhou ainda mais uma vez para a família sentada á mesa. Não era muito religioso, mas no silêncio de sua confusa fé agradeceu a Deus por ter colocado sua vida nos eixos novamente. Abriu a porta, o motorista já lhe esperava.

            Sentou-se no banco de trás do automóvel, pois queria aproveitar a viagem para ler as notícias do dia e preparar os relatórios das cargas que haviam recebido nas últimas semanas. O país ia bem, as pessoas voltavam a ter trabalho, comida na mesa, enfim, dignidade. E ele fazia parte daquilo. Seu trabalho era importante para que não houvesse retrocessos.

            As noticias eram animadoras. A produção crescia a cada dia, o país se tornava cada dia mais respeitado no cenário internacional. O povo voltava a sentir orgulho da nação. E ele fazia parte desse renascimento. Ele era um homem bom. O Partido era feito de homens bons. O chanceler era um homem bom.

            Como acontecia todas as manhãs, tão logo o carro saiu do perímetro urbano e mergulhou velozmente na recém inaugurada rodovia, ele largou o jornal de lado. Aquela paisagem o hipnotizava, lhe causava verdadeiro encantamento, levando-o a experimentar tal emoção que às vezes tinha que segurar para que uma lágrima não lhe brotasse dos olhos. Aliás, desde a infância a floresta lhe despertava esse êxtase.

            Da janela ele admirava o tapete de grama coberto por flores amarelas. Ao fundo, a floresta, sempre ela. Os pinheiros, as castanheiras, os abetos... Novamente sua memória o levava de volta a infância, quando aos domingos ia com o pai caminhar na floresta, colher cogumelos e vez ou outra pescar. Ele lembrava do pai, que era um homem bom e se sentia feliz por a cada dia se tornar mais parecido com o pai e ser também um homem bom.

            O solavanco do carro desfez a atmosfera de nostalgia na qual estava mergulhado e lhe mostrou que estavam chegando. De longe viu a fumaça das chaminés e sentiu aquele cheiro inconfundível que indicava que o trabalho estava sendo feito. Passaram pelo primeiro posto de identificação e logo pode ver que eles trabalhavam. O trabalho liberta, pensou. Aliás, esse era o lema indicado pela placa já na entrada.

            

 

Saymon, 25 de março de 2021                



                                                   

           



2 comentários:

  1. Excelente sucessão de fatos, tom tragicamente cômico. Muito bom mesmo.

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  2. Que texto magnífico! O Trabalho dignifica e a Educação é o caminho deste resgate! 👏👏👏✊🌹🏳🌎☀️🌕❤

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