terça-feira, 30 de março de 2021

FORTALEZA

 


        Recordo-me de descer do avião e alguém me dizer que tínhamos acabado de aterrissar em Fortaleza.  Minhas memórias começam ali, não me lembro de ter comprado passagem, ido ao aeroporto e nem do voo em si. Sei que não viajava sozinho, mas tampouco me recordo quem estava comigo. Vagamente acho que vi meu pai em algum momento após sair do Aeroporto, mas mesmo essa lembrança é pouco nítida.

            Minha memória sobre os eventos que por hora relato assemelha-se mais a um álbum de fotografias do que a um filme. E mesmo assim, existem enormes lacunas entre uma foto e outra. Das escadas do avião já me vejo na praia. Ah, a praia! O mar do Nordeste! Era um sonho que se tornava realidade. Sempre fui encantado pelo mar, mas o mar do Nordeste, aquele imensidão aberta para o mundo, aquilo me tocava profundamente.

            Mas o que vi era bastante distante do mar dos meus sonhos, do que tinha visto em fotos e filmes. Eu esperava algo parecido com Mangue Seco, que tanto me encantou quando criança na novela Tieta. Aquilo era decepcionante. Era mais um canal, uma espécie de entrada e saída de porto. A água tinha o verde dos meus sonhos, a areia era fina e branca como eu imaginava, mas não tinha ondas e tampouco eu me senti aberto para o mundo.

            Resolvi caminhar. Certamente as praias paradisíacas, sombreadas por coqueiros, com os pitorescos barcos dos pescadores, estariam mais a frente. Conforme eu andava a decepção só crescia. As praias amplas e os coqueiros até apareceram, mas aquilo mais parecia uma represa. Onde estavam as ondas?

            As pessoas que estavam comigo pareciam felizes, falavam de como era bom aquele mar calmo, parecendo uma piscina. Sinceramente nunca entendi isso. O que é uma praia sem a eterna luta entre a terra e o oceano, sem a violência das ondas quebrando na praia, sem a “cabeça loura das ondas”, como dizia Castro Alves? Não, não, aquele não podia ser o mar do Nordeste.

            Nesse ponto uma nova lacuna aparece no álbum das minhas recordações. Só me lembro que olhei para o céu e vi aquela imagem pavorosa, aquele artefato maldito que me aterrorizava desde criança, aquela besta saída das profundezas do inferno. Era a Bomba Atômica. Vi-a chegando, lentamente, como o prólogo do pior dos pesadelos. Mais que a explosão em si, o que sempre me aterrorizou era o poder invisível da radiação, a morte dolorosa que aquela energia libertada do âmago da matéria carregava. Pensei em correr, me afastar o máximo possível do centro da explosão.

            Não sei bem o que aconteceu nesse momento, mas um jovem ao meu lado começou falar que aquilo era culpa da China, que ele sabia de tudo. Vi o clarão da explosão, pensei em fugir, mas preferi ficar e argumentar que aquilo certamente era coisa dos americanos.

 

 

                                                                       Saymon de Oliveira Justo

                                                                       31/03/2021

quinta-feira, 25 de março de 2021

O HOMEM BOM

                                                       

                    


                                                                       vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas                                                                                                     perderam o medo e as melhores perderam a                                                                                                    esperança” (Hanna Arendt)

 

                                Como era bom sentir aquela sensação, pensou o homem ao descer as escadas para tomar o café da manhã com a esposa e os filhos. O ano anterior tinha sido bastante complicado. Geralmente, nesta hora da manhã ele e a esposa já estavam brigando por conta da falta de dinheiro até para comprar comida. Quando não, nessa mesma hora ele estava chegando em casa de uma bebedeira na cervejaria do bairro, pois para essas necessidades primordiais o dinheiro sempre aparecia.     

            Mas agora ele descia orgulhoso as escadas. O uniforme novo lhe caia muito bem, conferia a dignidade necessária perante os filhos e a esposa. O cabelo bem cortado, a barba feita e o frescor da loção de barbear impregnavam a casa com o otimismo dos novos tempos.

            Beijou ternamente o rosto da esposa, afagou a cabeça das crianças e se sentou á mesa para o café. A claridade dessa hora da manhã, o perfume do café e do chá, o cheiro de pão recém assado, traziam á mente sua infância no lar paterno. Desde que entrara para o Partido e conseguira o novo emprego, sentia a agradável simetria de ser o chefe de família que seu falecido pai havia sido.

            Alheio ao que os filhos conversavam, tomava seu café enquanto o pensamento se voltava para as crianças do orfanato que ele e a esposa haviam visitado na tarde anterior. Aqueles olhinhos desconfiados, que mesmo quando sorriam carregavam uma tristeza permanente, eram como um punhal em sua alma. Mesmo não tendo ainda condições de adotar mais uma criança, lhe dava certo conforto as visitas que faziam mensalmente às crianças orfanato. Sempre levavam bolo.

            O toque da campainha desfez seus pensamentos e o lembrou que já estava atrasado para o trabalho. O dia seria cheio, aliás, todos eram. Mas apesar do cansaço físico, sua alma estava leve, não apenas pela segurança de agora poder prover adequadamente o sustento da família como também pela sensação de que, para além disso, trabalhava pelo seu país, por seu povo. Assim vivem os homens bons e ele, agora, se sentia um homem bom.

            Beijou a esposa, prometeu que chegaria mais cedo e lhe levaria ao teatro à noite. Antes de sair de casa olhou ainda mais uma vez para a família sentada á mesa. Não era muito religioso, mas no silêncio de sua confusa fé agradeceu a Deus por ter colocado sua vida nos eixos novamente. Abriu a porta, o motorista já lhe esperava.

            Sentou-se no banco de trás do automóvel, pois queria aproveitar a viagem para ler as notícias do dia e preparar os relatórios das cargas que haviam recebido nas últimas semanas. O país ia bem, as pessoas voltavam a ter trabalho, comida na mesa, enfim, dignidade. E ele fazia parte daquilo. Seu trabalho era importante para que não houvesse retrocessos.

            As noticias eram animadoras. A produção crescia a cada dia, o país se tornava cada dia mais respeitado no cenário internacional. O povo voltava a sentir orgulho da nação. E ele fazia parte desse renascimento. Ele era um homem bom. O Partido era feito de homens bons. O chanceler era um homem bom.

            Como acontecia todas as manhãs, tão logo o carro saiu do perímetro urbano e mergulhou velozmente na recém inaugurada rodovia, ele largou o jornal de lado. Aquela paisagem o hipnotizava, lhe causava verdadeiro encantamento, levando-o a experimentar tal emoção que às vezes tinha que segurar para que uma lágrima não lhe brotasse dos olhos. Aliás, desde a infância a floresta lhe despertava esse êxtase.

            Da janela ele admirava o tapete de grama coberto por flores amarelas. Ao fundo, a floresta, sempre ela. Os pinheiros, as castanheiras, os abetos... Novamente sua memória o levava de volta a infância, quando aos domingos ia com o pai caminhar na floresta, colher cogumelos e vez ou outra pescar. Ele lembrava do pai, que era um homem bom e se sentia feliz por a cada dia se tornar mais parecido com o pai e ser também um homem bom.

            O solavanco do carro desfez a atmosfera de nostalgia na qual estava mergulhado e lhe mostrou que estavam chegando. De longe viu a fumaça das chaminés e sentiu aquele cheiro inconfundível que indicava que o trabalho estava sendo feito. Passaram pelo primeiro posto de identificação e logo pode ver que eles trabalhavam. O trabalho liberta, pensou. Aliás, esse era o lema indicado pela placa já na entrada.

            

 

Saymon, 25 de março de 2021                



                                                   

           



NÓS

 

                                                       


E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança (...). E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

Gênesis.

 

Despertou antes mesmo que os primeiros raios de sol lhe pousassem sobre a face. Na escuridão da caverna as pulgas o atormentavam, porém, não foi por isso que se levantou antes de todos do bando. Seu estômago doía, a sensação do ácido lacerando suas entranhas dizia que era hora. Não avisou ninguém, e mesmo que quisesse não o poderia fazer, pois o dom da fala ainda não lhe pertencia, apenas ao criador, sua imagem e semelhança. Não podia esperar.

Caminhou com desenvoltura pela planície, não porque o luar o favorecia, pois o astro que mais tarde seria motivos de tantas estrofes teimava em se esconder. O bando já vivia ali há um bom tempo, desde que a grande seca o havia levado para aquelas paragens. Conhecia cada pedra, cada galho fora do lugar, cada pormenor daquele arrabalde. Uma hora depois, por nossos modernos relógios ainda desconhecidos naqueles idos, sentiu certo desconforto. Sem o menor movimento de pescoço que indicasse qualquer preocupação em verificar a presença de um observador, tão somente se agachou e colocou para fora o que lhe angustiava.

O sol já lhe queimava a rala pelagem e ele continuava caminhando. Pouco depois cerrou os olhos para perceber melhor o que estava em seu caminho. Lá estava ela. Com sua pelagem quase imperceptível, os lábios rubros e protuberantes, os mamilos róseos e quase nus, a genitália avermelhada como sangue fresco… Não foi amor à primeira vista, apenas impulso incontrolável. Sem flerte algum, sem rosas e nem vinho, pegou-a pela cintura, de costas. No começo ela resistiu, debateu-se, mas logo que teve certeza da desproporção de forças e do impulso titânico que tomava sua carne, entregou-se a ele. Alguns segundos depois, sua segunda necessidade estava satisfeita. Seguiu seu caminho.

A cada passo aumentava a dor que lhe rasgava o estômago e logo um barulho despertou sua atenção. Apertou o passo e seguiu na direção indicada aos ouvidos. A saliva inundou-lhe a boca quando viu aquele animal cambaleando logo à sua frente. O perfume do sangue atiçava ainda mais sua fome. Olhou a procura de algo que lhe servisse para a ocasião, mas só encontrou um grande pedaço de pedra. O animal, percebendo o perigo que lhe rondava, e mesmo naquela situação, ainda tentou fugir. O primeiro golpe não o matou, mas o grito agonizante não deixava dúvidas que seu fim estava próximo. O segundo golpe atingiu em cheio a fronte, fazendo com que o sangue esguichasse abundantemente.

Quando agachou para dilacerar a carne sentiu que não estava sozinho. A luta ia ser dura, pois o outro macho era bem mais robusto. Contudo, não sentiu medo. A coragem vinha de milhares de anos de evolução e de três dias e três noites sem alimento. Olhares se cruzaram, gestos, rituais, ameaças… Em alguns segundos os filhos de Deus debatiam-se no chão. O mais robusto conseguiu asfixiar o rival. Julgando-o abatido, levantou-se e foi recolher o animal morto.

O movimento do sol, que ainda não havia matado Galileu, queimou-lhe a face, lembrando-o que ainda estava vivo. Levantou-se vagarosamente, um pouco pela fraqueza e outro tanto por astúcia. Vendo o rival fartando-se sobre o animal morto, serenamente pegou uma rocha de tamanho médio e o golpeou na cabeça. Cambaleou, estremeceu, as babas de sangue saiam pela boca, os olhos pareciam cada vez mais inertes… Continuou golpeando, alucinadamente, até que a cabeça do rival se transformasse em uma massa disforme e arroseada pela mistura do sangue com a massa cerebral. Cansado, conseguiu ainda levar o alimento para debaixo de uma sombra. Saboreou com sofreguidão a carne misturada ao sangue da luta.

A terceira necessidade estava satisfeita. Encostou-se na sombra da árvore e adormeceu tranquilamente o sono dos justos.

 

Saymon DE Oliveira Justo 

segunda-feira, 22 de março de 2021

A cidadezinha

 


                      Sempre fui fascinado pelo mar. O cheiro da água salgada, da areia, o barulho das ondas quebrando, tudo isso sempre me trouxe uma indescritível sensação de paz. Nos momentos mais difíceis da minha vida me voltei para o oceano, mesmo que fosse na imaginação.

            Era uma tarde nublada, como muitas daquela época do ano, com chuviscos, céu cinza, mas nada de trovoadas ou tempestades. Eu voltava de uma consulta médica em outra cidade quando o ônibus parou naquela pequena rodoviária de uma pitoresca cidadezinha que, aliás, até hoje não sei o nome. Num vislumbre vi o mar. Não estava vestido com aquele azul encantador que tanto me fascina, mas era o mar. Aliás, sempre me encantei com a mistura de mar e cidadezinhas, pois fogem da enfadonha estética das orlas cheias de prédios, todos iguais.

            Sem muito pensar peguei minha mochila e desci, seria agradável passar uns três ou quatro dias naquela simpática cidadeinha. Apesar de pequena, julguei que não seria difícil encontrar um hotelzinho ou pousada compatível com meus parcos recursos. Queria mesmo só ver o mar. Sentar na areia sozinho e ficar horas olhando o vai e vem das ondas.

            A ruazinha de paralelepípedo, com casinhas de uma arquitetura antiga, tornava tudo ainda mais agradável. Tinha um cheiro de infância, de quando vi o mar pela primeira vez com meu pai. Pelo pequeno fluxo de pessoas, que pareciam ser turistas, imaginei onde poderia encontrar lugar para me hospedar.

            Atravessei a pequena pracinha em frente a rodoviária e me embrenhei por uma rua estreita, onde parecia ter uma pousada. Não me enganei. Caminhei pouco mais de um quarteirão e me vi em frente a um casarão, onde uma placa indicava quartos pra alugar a preços incrivelmente baixos. Era um casarão de dois andares, pintado com aquele amarelo desbotado que caracteriza as construções antigas. Só não pode ter baratas, pensei comigo.

            Logo uma moça loira, muito bonita, aparentando não mais que uns 27 anos, me atendeu e me levou pra conhecer os aposentos. Era uma dessas belezas angelicais, que não sabem da própria beleza. Era uma loira alta, das bochechas coradas, e nada na pele ou cabelos que indicasse maiores cuidados com a aparência. Entrei na casa e vi aquele assoalho de madeira, um ambiente escuro, com cheiro de mofo.  Mal sinal. Esses assoalhos de casas antigas geralmente escondem baratas. Uma senhora gorda de aparência pouco agradável, cheirando a fritura, me fez sinal para subir ao andar de cima para ver os quartos.

            Quando subi as escadas, com corrimão já se soltando, tudo rangendo, vi aquele assoalho afundado, sugerindo desabamento a qualquer momento. Tudo ao redor era decadência. De um buraco no assoalho tive até a impressão de uma barata me espreitando. Resolvi gastar um pouco mais e investir em acomodações mais confortáveis.

             Sai novamente para a rua em busca de um hotel. Em frente à Igrejinha um padre mal encarado não tirava os olhos de mim. Todo de preto, com chapéu igual ao padre de “O Exorcista” e aparência não menos macabra, o padre me olhava acintosamente, virando a cabeça de formas estranhas. Resolvi procurar informação em outro lugar.

            Um pouco á frente vi um quartel dos bombeiros e ali um soldado me informou que eu poderia encontrar um hotel na rua de trás. Querendo me afastar o mais rápido possível da macabra figura do padre que continuava me olhando, resolvi voltar em direção a rodoviária para ter acesso a tal rua de trás.

            Poucos passos andando de volta em direção a rodoviária vi uma senhora dos seus quarenta anos, com lenço no pescoço, blusa florida e chapéu. Passei ao lado dela e ela me encarou acintosamente. Nunca tinha visto um olho vesgo como aquele, menos ainda me encarando daquela forma pavorosa. Andei mais alguns passos, olhei pra traz e ela continuava me olhando, tal qual o padre do chapéu preto que agora estava ao lado dela.

            Quase chegando na rodoviária agora um senhor, com um olho tão virado como o da mulher, passou por mim e me encarou. Aliás, a rua estava cada vez mais cheia e todas as pessoas tinham aquele olho torto e me encaravam de forma assustadora, com um olhar onde se misturavam um pavor visceral com um ódio que parecia vindo das entranhas do inferno.

            Eu tentava correr, mas as pernas não obedeciam, por mais que andasse eu não conseguia sair daquela rua. As pessoas não mais apenas me olhavam, mas me perseguiam. Cada vez mais, todos com aquele olhar pavoroso agora tentavam me cercar.

            Nesse momento uma menina de seus doze anos, também com o olho torto, assustada, pegou minha mão, segurou e disse pra eu ficar quieto que se não fizesse barulhos eles não conseguiriam me ver.

 

  Saymon de Oliveira Justo

Ano II da Pandemia. 22 de março de 2021

Mel de barata

 


                                       

            Acordei, fui direto à cozinha e me deparei com aquele recipiente sobre a mesa. Não me recordo quem estava na cozinha e nem quem me contou qual a natureza daquela estranha iguaria. Era um pote de vidro transparente, bastante parecido com aqueles potes que usamos para colocar doce ou balas. No interior brilhava um líquido de um marrom-avermelhado, de aparência viscosa. Imersas no líquido, estranhas esferas escuras, de um marrom quase preto, semelhantes a uvas passas, mas arredondadas com mais esmero. “Mel de barata”, me disseram.

            Mais que o caráter surreal da situação, o que reavivou em minha alma foi o antigo pavor dessas criaturas. Logo me veio à memória o cheiro e a repugnância que sentia na infância quando via meu pai limpar uma caixa de esgoto de nossa antiga casa e logo se formar um tapete marrom de baratas. Não é exatamente medo. É uma mistura de repugnância, com horror, terror, pavor. Lembro até hoje do começo de “Almas Mortas”, do Gogol, onde ele descreve um quarto de hospedaria com baratas, saindo por todos os cantos, parecidas com ameixas secas.

            Na hora nem me preocupei com questionamentos científicos acerca da capacidade de baratas produzirem mel. Aliás, pensando agora, se o produzissem acredito que não seria nada parecido com o que eu vi naquele vidro, mas sim algo mais próximo daquela gosma branca que vemos quando uma barata é esmagada. Enfim, procurei me afastar o máximo possível daquele pote.

            Era estranho, não sei o que acontecia, mas eu não consegui sair daquela cozinha. Algo me mantinha no cômodo, apesar do desejo de sair até da casa. Perplexidade? Terror que paralisa? Alguma força metafísica? Sinceramente não sei, mas o fato é que o que viria a seguir seria ainda mais estranho e ainda menos crível.

            Alguém, e novamente não me lembro quem, mesmo porque não me lembro do rosto de ninguém naquela cozinha, alguém abriu o pote e com uma colher tirou a até então inofensiva esfera marrom quase preta de dentro do líquido. Colocada sobre a mesa, não sei se por conta do contato com algum elemento químico da nossa atmosfera, a estranha esfera começou a crescer e tomar forma.

            Quanto mais crescia mais ganhava contornos definidos, traços, forma. Em poucos segundos um estranho cachorro que não era cachorro, aliás, era mais parecido com um Demônio da Tasmânia, se formou por sobre a mesa. De pelagem marrom, aparentando uma aspereza encardida, o bicho por si só já era assustador, mas não repugnante. Porém, só de saber que aquela infernal criatura poderia ser uma metamorfose de uma barata, como diria Kafka, me causou profundo terror.

            Na verdade a criatura era ainda mais aterrorizante em sua nova forma, pois podia correr.

 

 

Saymon de Oliveira Justo

Ano II da Pandemia. 22 de março de 2021