segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

CLARABOIA

 

   

Claraboia é ao mesmo tempo o mais recente e um dos mais antigos trabalhos do português José Saramago. Escrito no início da década de 1950, o romance foi naqueles idos ignorado pela editora e anos mais tarde, quando já era um escritor consagrado, Saramago recusou-se a publicar a obra, nas palavras de Dante, o Gerente Geral do Sebo Almanaque, “por pirraça”.

Em Clarabóia não nos deparamos com o inusitado, tão frequente na obra de Saramago. A península Ibérica não se separa do continente europeu, transformando-se em uma imensa “Jangada de Pedra”; nenhuma epidemia de cegueira acomete a população de Lisboa; a morte não cessa temporariamente suas atividades; não somos contemplados por algo como a herética noite de amor entre Jesus e Maria Madalena e tampouco pelas injúrias de “Caim” ao Senhor. Clarabóia, em certo sentido, aproxima-se mais da simplicidade encantadora de “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, do que das obras posteriores do próprio Saramago. Mas isso só em certo sentido, pois o arguto observador social já aparece bastante maduro nessa obra.

A narrativa acompanha o movimento dos personagens. Em um antigo prédio de Lisboa, Saramago mergulha com toda profundidade que lhe é tão peculiar no convívio das várias famílias e “não famílias” daquela habitação. A obra traz ao leitor os aspectos mais nocivos da sociedade patriarcal, onde a ex-prostituta Lídia  lança mão de todos seus encantos para conseguir os favores do empresário Paulino Morais; onde os casamentos se sustentam mesmo quando os antigos enamorados mal conseguem cruzar o olhar sem que a naúsea traga a todo o momento o real fundamento da “Sagrada Família”. “Caetano gostava de mulheres (...). De todas as mulheres, uma só desdenhava: a sua. Justina, era, para si, um ser assexuado, sem necessidades nem desejos”.

Em outro andar do prédio toda sexualidade reprimida da doce e casta Isaura explode quando se sente tomada de desejos pela própria irmã. “Lentamente, as mãos de Isaura moveram-se na direção da irmã. As pontas dos dedos captaram o calor de Adriana a um centímetro de distância (...). Devagar, uma das mãos percorreu o braço desde o pulso ao ombro, devagar se introduziu sob a axila quente e húmida, devagar se insinuou por baixo do seio”.

Vidas se cruzam e se combinam. O prédio parece um microcosmo da sociedade portuguesa do período, com toda sua poesia e suas desgraças. O desemprego, a repressão sexual, a sociedade machista...Nada escapa ao olhar atento do autor. Clarabóia é o prólogo do gênio de Saramago.

 

Saymon de Oliveira Justo

 


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