Claraboia é ao mesmo tempo o mais recente e um dos mais antigos trabalhos do português José Saramago. Escrito no início da década de 1950, o romance foi naqueles idos ignorado pela editora e anos mais tarde, quando já era um escritor consagrado, Saramago recusou-se a publicar a obra, nas palavras de Dante, o Gerente Geral do Sebo Almanaque, “por pirraça”.
Em Clarabóia
não nos deparamos com o inusitado, tão frequente na obra de Saramago. A
península Ibérica não se separa do continente europeu, transformando-se em uma
imensa “Jangada de Pedra”; nenhuma
epidemia de cegueira acomete a população de Lisboa; a morte não cessa
temporariamente suas atividades; não somos contemplados por algo como a
herética noite de amor entre Jesus e Maria Madalena e tampouco pelas injúrias
de “Caim” ao Senhor. Clarabóia, em
certo sentido, aproxima-se mais da simplicidade encantadora de “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, do que das obras posteriores do
próprio Saramago. Mas isso só em certo sentido, pois o arguto observador social
já aparece bastante maduro nessa obra.
A narrativa acompanha o movimento dos personagens.
Em um antigo prédio de Lisboa, Saramago mergulha com toda profundidade que lhe
é tão peculiar no convívio das várias famílias e “não famílias” daquela
habitação. A obra traz ao leitor os aspectos mais nocivos da sociedade
patriarcal, onde a ex-prostituta
Lídia lança mão de todos seus encantos
para conseguir os favores do empresário Paulino Morais; onde os casamentos se
sustentam mesmo quando os antigos enamorados mal conseguem cruzar o olhar sem
que a naúsea traga a todo o momento o real fundamento da “Sagrada Família”. “Caetano
gostava de mulheres (...). De todas as mulheres, uma só desdenhava: a sua.
Justina, era, para si, um ser assexuado, sem necessidades nem desejos”.
Em outro andar do prédio toda sexualidade
reprimida da doce e casta Isaura explode quando se sente tomada de desejos pela
própria irmã. “Lentamente, as mãos de
Isaura moveram-se na direção da irmã. As pontas dos dedos captaram o calor de
Adriana a um centímetro de distância (...). Devagar, uma das mãos percorreu o
braço desde o pulso ao ombro, devagar se introduziu sob a axila quente e
húmida, devagar se insinuou por baixo do seio”.
Vidas se cruzam e se combinam. O prédio parece um
microcosmo da sociedade portuguesa do período, com toda sua poesia e suas
desgraças. O desemprego, a repressão sexual, a sociedade machista...Nada escapa
ao olhar atento do autor. Clarabóia é o prólogo do gênio de Saramago.
Saymon de Oliveira Justo

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