Já era a terceira ou quarta vez que eu pegava
aquele livro vermelho nas mãos, folheava e largava de lado. Mas não sei “por
que cargas d’água”, naquela tarde resolvi levar o calhamaço para casa. Acho que
um pouco por uma necessidade inexplicável de ler tudo sobre o Nazismo e outro
tanto por uma espécie de compulsão em comprar livros.
Alguns críticos recomendavam-no como “um novo Guerra e Paz”, um “futuro clássico”. Outros exaltavam o
recorde de vendas que obteve na França. Enfim, as expectativas poderiam ser
altas, mas como sempre desconfio “dos mais lidos”, sobretudo pelos franceses,
estava mais curioso do que empolgado.
Após passar pelas 900 páginas como se
passa por uma agradável estradinha enfeitada por ipês, me surpreendi
sobremaneira, a obra de Jonathan Littell, era realmente tudo que prometia, e
até mesmo um pouco mais.
“As Benevolentes” é uma obra
surpreendente, que cativa o leitor da primeira à última página. É uma obra de
ficção, mas transita com desenvoltura pela história, filosofia e psicologia. Jonathan
Littell, judeu norte-americano, passou cinco anos pesquisando material
histórico para (re) construir o cenário por onde se movimenta seu complexo
personagem. O livro é escrito em forma de memórias, nas quais o ex-oficial SS
Maximilien Aue recorda sua passagem pela Segunda Guerra.
Após a guerra o ex-oficial nazista vive
escondido como gerente de uma fábrica têxtil. Atormentado pelas constantes
crises de vômitos e pelos fantasmas do passado, resolve escrever suas experiências. Aue se
lembra das brincadeiras com sua irmã durante a infância, uma mistura de
erotismo e inocência. Nunca se esqueceu daquelas experiências, da forma abrupta
como foram separados e tampouco das juras de amor eterno. Adulto, nunca
conseguiu se relacionar com mulher alguma, mantendo-se, de certa forma, casto
em nome da fidelidade prometida à irmã. Aue só se relaciona sexualmente com
homens, uma forma de se manter fiel e como ele mesmo diz, de estar no lugar da
irmã de alguma forma.
Jonathan Littell reconstrói
magistralmente e com rigor a Europa Ocidental durante o período da Guerra.
Todos os dilemas, dissidências, cenários, personagens e fatos, são dignos dos
herdeiros de Heródoto. Aue interage com homens como Himmler, Eichmann, Hans
Frank e até mesmo com Hitler. Transita entre Berlim, Cracóvia, Stalingrado,
Ucrânia, França... E nesse sentido, Jonatahn Littell é extremamente rigoroso
tanto no aspecto factual quanto em relação aos dilemas de cada batalha, debate,
dissidência política etc.
Aue está longe de ser um herói, mas
tampouco é colocado como a encarnação do mal. Nas palavras do próprio autor,
ele “jamais poderia avançar se ficasse no
registro da recriação ficcional clássica, com o autor onisciente (...) A única
maneira era me colocar na pele do carrasco”. Jonathan Littell não se deixa seduzir pelo
maniqueísmo simplista, que despe o homem de toda sua complexidade. Apesar de
não demonizar Aue, a obra tampouco é condescendente com os crimes cometidos
pelos nazistas. O que o autor faz é colocar seu personagem em meio a todos os
dilemas de seu espaço e tempo, sem a perspectiva da posteridade, imerso até as
entranhas em seu meio cultural, social, com as possibilidades de escolha
disponíveis na época.
Ao não colocar Aue como herói, nem como
encarnação do mau, o autor consegue alçar sua obra a outro patamar. Os nazistas
não surgiram de uma categoria especial de homens, desprovidos de caráter, “bondade”,
educação ou generosidade. Ao contrário, muitos eram homens comuns, COMO NÓS,
pais de família, bons maridos, amigos leais, trabalhadores, mas que pelos mais
diversos motivos foram levados ou se deixaram levar pela espiral nazista. Ao
proceder desta forma, Littell não anistia seu personagem, mas mostra toda
complexidade do ser humano, que pode ir dos extremos da generosidade aos atos
mais bestiais.
A partir daí Jonathan Littell chega ao
que talvez constitui a parte mais fecunda e incomoda de sua obra. O que
faríamos nós no contexto de Aue? Quais nossas decisões em meios aos dilemas da
época? O homem é um ser livre? É determinado pelo meio? O que nos leva do
extremo altruísmo aos porões da bestialidade?
Seja qual for a resposta que cada um
encontre em suas mais sinceras reflexões, Aue também busca as suas, pois o
passado o persegue em seus sonhos mais íntimos. Por mais que fuja, que cultive
o esquecimento, as Benevolentes, deusas da vingança, “haviam encontrado meu rastro”.
Por: Saymon de Oliveira Justo

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