quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

AS BENEVOLENTES

 

           


             

Já era a terceira ou quarta vez que eu pegava aquele livro vermelho nas mãos, folheava e largava de lado. Mas não sei “por que cargas d’água”, naquela tarde resolvi levar o calhamaço para casa. Acho que um pouco por uma necessidade inexplicável de ler tudo sobre o Nazismo e outro tanto por uma espécie de compulsão em comprar livros.

Alguns críticos recomendavam-no como “um novo Guerra e Paz”, um “futuro clássico”. Outros exaltavam o recorde de vendas que obteve na França. Enfim, as expectativas poderiam ser altas, mas como sempre desconfio “dos mais lidos”, sobretudo pelos franceses, estava mais curioso do que empolgado.

Após passar pelas 900 páginas como se passa por uma agradável estradinha enfeitada por ipês, me surpreendi sobremaneira, a obra de Jonathan Littell, era realmente tudo que prometia, e até mesmo um pouco mais.

“As Benevolentes” é uma obra surpreendente, que cativa o leitor da primeira à última página. É uma obra de ficção, mas transita com desenvoltura pela história, filosofia e psicologia. Jonathan Littell, judeu norte-americano, passou cinco anos pesquisando material histórico para (re) construir o cenário por onde se movimenta seu complexo personagem. O livro é escrito em forma de memórias, nas quais o ex-oficial SS Maximilien Aue recorda sua passagem pela Segunda Guerra.

Após a guerra o ex-oficial nazista vive escondido como gerente de uma fábrica têxtil. Atormentado pelas constantes crises de vômitos e pelos fantasmas do passado,  resolve escrever suas experiências. Aue se lembra das brincadeiras com sua irmã durante a infância, uma mistura de erotismo e inocência. Nunca se esqueceu daquelas experiências, da forma abrupta como foram separados e tampouco das juras de amor eterno. Adulto, nunca conseguiu se relacionar com mulher alguma, mantendo-se, de certa forma, casto em nome da fidelidade prometida à irmã. Aue só se relaciona sexualmente com homens, uma forma de se manter fiel e como ele mesmo diz, de estar no lugar da irmã de alguma forma.

Jonathan Littell reconstrói magistralmente e com rigor a Europa Ocidental durante o período da Guerra. Todos os dilemas, dissidências, cenários, personagens e fatos, são dignos dos herdeiros de Heródoto. Aue interage com homens como Himmler, Eichmann, Hans Frank e até mesmo com Hitler. Transita entre Berlim, Cracóvia, Stalingrado, Ucrânia, França... E nesse sentido, Jonatahn Littell é extremamente rigoroso tanto no aspecto factual quanto em relação aos dilemas de cada batalha, debate, dissidência política etc.

Aue está longe de ser um herói, mas tampouco é colocado como a encarnação do mal. Nas palavras do próprio autor, ele “jamais poderia avançar se ficasse no registro da recriação ficcional clássica, com o autor onisciente (...) A única maneira era me colocar na pele do carrasco”.  Jonathan Littell não se deixa seduzir pelo maniqueísmo simplista, que despe o homem de toda sua complexidade. Apesar de não demonizar Aue, a obra tampouco é condescendente com os crimes cometidos pelos nazistas. O que o autor faz é colocar seu personagem em meio a todos os dilemas de seu espaço e tempo, sem a perspectiva da posteridade, imerso até as entranhas em seu meio cultural, social, com as possibilidades de escolha disponíveis na época.

Ao não colocar Aue como herói, nem como encarnação do mau, o autor consegue alçar sua obra a outro patamar. Os nazistas não surgiram de uma categoria especial de homens, desprovidos de caráter, “bondade”, educação ou generosidade. Ao contrário, muitos eram homens comuns, COMO NÓS, pais de família, bons maridos, amigos leais, trabalhadores, mas que pelos mais diversos motivos foram levados ou se deixaram levar pela espiral nazista. Ao proceder desta forma, Littell não anistia seu personagem, mas mostra toda complexidade do ser humano, que pode ir dos extremos da generosidade aos atos mais bestiais.

A partir daí Jonathan Littell chega ao que talvez constitui a parte mais fecunda e incomoda de sua obra. O que faríamos nós no contexto de Aue? Quais nossas decisões em meios aos dilemas da época? O homem é um ser livre? É determinado pelo meio? O que nos leva do extremo altruísmo aos porões da bestialidade?

Seja qual for a resposta que cada um encontre em suas mais sinceras reflexões, Aue também busca as suas, pois o passado o persegue em seus sonhos mais íntimos. Por mais que fuja, que cultive o esquecimento, as Benevolentes, deusas da vingança, “haviam encontrado meu rastro”.

 

 

Por: Saymon de Oliveira Justo

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