quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Levantado do Chão

 



Gerações da família Mau-Tempo são ceifadas pelo latifúndio. A vida sendo consumida nas searas do Alentejo é apenas o microcosmo da estrutura fundiária de Portugal, tão dramaticamente pintada por José Saramago em seu “Levantado do Chão”. As vidas se passam e parecem não passar, como em um déjà vu, Domingos Mau-Tempo, João Mau-Tempo, Antônio Mau-Tempo...Um personagem sucede o outro, permanecendo a mesma desgraçada existência daqueles  que tem por único horizonte um pedaço de pão para o dia seguinte.  

Começam e terminam guerras, finda a monarquia, a república de Salazar abre suas asas de corvo sobre Portugal, tudo muda, mas não muda. Permanecem os Mau-Tempo, e tantos milhares de outros como eles, existindo apenas com o único fim lubrificarem a máquina construída por Deus, desde o início dos tempos, e diria Saramago, dos Maus-Tempos. Assim diz o padre Agamedes, confortando os pobres desgraçados com as dádivas d’além túmulo. Lamberto, Gualberto, Adalberto e tantos outros “Berto”, representam uma das extremidades da “Santíssima Trindade”, formada também pela Igreja e pela Guarda, que conforta de outras formas, um tanto quanto doloridas. O Latifúndio, tal qual uma entidade viva, nutrindo-se do sangue e suor daqueles que vieram ao mundo tão somente para isso, excreta apenas as formas cadavéricas e sem vida, já que essa nas searas ficou.

 

Estes homens e estas mulheres nasceram para trabalhar, são gado inteiro ou gado rachado, saem ou tiram-nos das barrigas das mães, põem-nos a crescer de qualquer maneira, tanto faz, preciso é que venham a ter força e destreza de mãos, mesmo que para um gesto só, que importância tem se em poucos anos ficarem pesados e hirtos, são cepos ambulantes que quando chegam ao trabalho a si próprios se sacodem e da rigidez do corpo fazem sair dois braços e duas pernas que vão e vêm, por aqui se vê a que ponto chegaram as bondades e competência do Criador, obrando tão perfeitos instrumentos de cava e ceifa, de monda e serventia geral. (José Saramago)

 

 

A escrita nada convencional de Saramago, e por vezes até um pouco árida ao leitor pouco familiarizado, transforma-se ao longo dos capítulos. Os personagens, antes “meros repetidores passivos e submissos de discursos alheios”, assumem as rédeas da narrativa, tal qual o fazem com suas próprias existências. Já não são mais simples objetos descritos pelo narrador, ao contrário, se descrevem, assumem as responsabilidades por suas ações. Após décadas de luta, que culminam na Revolução dos Cravos de 1974, os camponeses do Alentejo marcham para o Latifúndio, não mais para servirem Adalberto ou Gualberto, mas agora para serem senhores de si mesmos.

Como uma força da natureza os camponeses marcham. Não há mais “Senhor Padre Agamedes” ou Guarda que os detenham. Os mortos se levantam da terra que antes não lhes pertencia e qual numa procissão, mãos dadas aos seus camaradas, levantam-se do chão para o nascer de um novo dia.

 

“Levantado do Chão” fala de trabalhadores. Aprendemos um pouco, isso e o resto, o próprio orgulho também, com aqueles que do chão se levantaram e a ele não tornam, porque do chão só devemos querer o alimento e aceitar a sepultura, nunca a resignação. (José Saramago). 

 

Saymon de Oliveira Justo

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

AS BENEVOLENTES

 

           


             

Já era a terceira ou quarta vez que eu pegava aquele livro vermelho nas mãos, folheava e largava de lado. Mas não sei “por que cargas d’água”, naquela tarde resolvi levar o calhamaço para casa. Acho que um pouco por uma necessidade inexplicável de ler tudo sobre o Nazismo e outro tanto por uma espécie de compulsão em comprar livros.

Alguns críticos recomendavam-no como “um novo Guerra e Paz”, um “futuro clássico”. Outros exaltavam o recorde de vendas que obteve na França. Enfim, as expectativas poderiam ser altas, mas como sempre desconfio “dos mais lidos”, sobretudo pelos franceses, estava mais curioso do que empolgado.

Após passar pelas 900 páginas como se passa por uma agradável estradinha enfeitada por ipês, me surpreendi sobremaneira, a obra de Jonathan Littell, era realmente tudo que prometia, e até mesmo um pouco mais.

“As Benevolentes” é uma obra surpreendente, que cativa o leitor da primeira à última página. É uma obra de ficção, mas transita com desenvoltura pela história, filosofia e psicologia. Jonathan Littell, judeu norte-americano, passou cinco anos pesquisando material histórico para (re) construir o cenário por onde se movimenta seu complexo personagem. O livro é escrito em forma de memórias, nas quais o ex-oficial SS Maximilien Aue recorda sua passagem pela Segunda Guerra.

Após a guerra o ex-oficial nazista vive escondido como gerente de uma fábrica têxtil. Atormentado pelas constantes crises de vômitos e pelos fantasmas do passado,  resolve escrever suas experiências. Aue se lembra das brincadeiras com sua irmã durante a infância, uma mistura de erotismo e inocência. Nunca se esqueceu daquelas experiências, da forma abrupta como foram separados e tampouco das juras de amor eterno. Adulto, nunca conseguiu se relacionar com mulher alguma, mantendo-se, de certa forma, casto em nome da fidelidade prometida à irmã. Aue só se relaciona sexualmente com homens, uma forma de se manter fiel e como ele mesmo diz, de estar no lugar da irmã de alguma forma.

Jonathan Littell reconstrói magistralmente e com rigor a Europa Ocidental durante o período da Guerra. Todos os dilemas, dissidências, cenários, personagens e fatos, são dignos dos herdeiros de Heródoto. Aue interage com homens como Himmler, Eichmann, Hans Frank e até mesmo com Hitler. Transita entre Berlim, Cracóvia, Stalingrado, Ucrânia, França... E nesse sentido, Jonatahn Littell é extremamente rigoroso tanto no aspecto factual quanto em relação aos dilemas de cada batalha, debate, dissidência política etc.

Aue está longe de ser um herói, mas tampouco é colocado como a encarnação do mal. Nas palavras do próprio autor, ele “jamais poderia avançar se ficasse no registro da recriação ficcional clássica, com o autor onisciente (...) A única maneira era me colocar na pele do carrasco”.  Jonathan Littell não se deixa seduzir pelo maniqueísmo simplista, que despe o homem de toda sua complexidade. Apesar de não demonizar Aue, a obra tampouco é condescendente com os crimes cometidos pelos nazistas. O que o autor faz é colocar seu personagem em meio a todos os dilemas de seu espaço e tempo, sem a perspectiva da posteridade, imerso até as entranhas em seu meio cultural, social, com as possibilidades de escolha disponíveis na época.

Ao não colocar Aue como herói, nem como encarnação do mau, o autor consegue alçar sua obra a outro patamar. Os nazistas não surgiram de uma categoria especial de homens, desprovidos de caráter, “bondade”, educação ou generosidade. Ao contrário, muitos eram homens comuns, COMO NÓS, pais de família, bons maridos, amigos leais, trabalhadores, mas que pelos mais diversos motivos foram levados ou se deixaram levar pela espiral nazista. Ao proceder desta forma, Littell não anistia seu personagem, mas mostra toda complexidade do ser humano, que pode ir dos extremos da generosidade aos atos mais bestiais.

A partir daí Jonathan Littell chega ao que talvez constitui a parte mais fecunda e incomoda de sua obra. O que faríamos nós no contexto de Aue? Quais nossas decisões em meios aos dilemas da época? O homem é um ser livre? É determinado pelo meio? O que nos leva do extremo altruísmo aos porões da bestialidade?

Seja qual for a resposta que cada um encontre em suas mais sinceras reflexões, Aue também busca as suas, pois o passado o persegue em seus sonhos mais íntimos. Por mais que fuja, que cultive o esquecimento, as Benevolentes, deusas da vingança, “haviam encontrado meu rastro”.

 

 

Por: Saymon de Oliveira Justo

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

CLARABOIA

 

   

Claraboia é ao mesmo tempo o mais recente e um dos mais antigos trabalhos do português José Saramago. Escrito no início da década de 1950, o romance foi naqueles idos ignorado pela editora e anos mais tarde, quando já era um escritor consagrado, Saramago recusou-se a publicar a obra, nas palavras de Dante, o Gerente Geral do Sebo Almanaque, “por pirraça”.

Em Clarabóia não nos deparamos com o inusitado, tão frequente na obra de Saramago. A península Ibérica não se separa do continente europeu, transformando-se em uma imensa “Jangada de Pedra”; nenhuma epidemia de cegueira acomete a população de Lisboa; a morte não cessa temporariamente suas atividades; não somos contemplados por algo como a herética noite de amor entre Jesus e Maria Madalena e tampouco pelas injúrias de “Caim” ao Senhor. Clarabóia, em certo sentido, aproxima-se mais da simplicidade encantadora de “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, do que das obras posteriores do próprio Saramago. Mas isso só em certo sentido, pois o arguto observador social já aparece bastante maduro nessa obra.

A narrativa acompanha o movimento dos personagens. Em um antigo prédio de Lisboa, Saramago mergulha com toda profundidade que lhe é tão peculiar no convívio das várias famílias e “não famílias” daquela habitação. A obra traz ao leitor os aspectos mais nocivos da sociedade patriarcal, onde a ex-prostituta Lídia  lança mão de todos seus encantos para conseguir os favores do empresário Paulino Morais; onde os casamentos se sustentam mesmo quando os antigos enamorados mal conseguem cruzar o olhar sem que a naúsea traga a todo o momento o real fundamento da “Sagrada Família”. “Caetano gostava de mulheres (...). De todas as mulheres, uma só desdenhava: a sua. Justina, era, para si, um ser assexuado, sem necessidades nem desejos”.

Em outro andar do prédio toda sexualidade reprimida da doce e casta Isaura explode quando se sente tomada de desejos pela própria irmã. “Lentamente, as mãos de Isaura moveram-se na direção da irmã. As pontas dos dedos captaram o calor de Adriana a um centímetro de distância (...). Devagar, uma das mãos percorreu o braço desde o pulso ao ombro, devagar se introduziu sob a axila quente e húmida, devagar se insinuou por baixo do seio”.

Vidas se cruzam e se combinam. O prédio parece um microcosmo da sociedade portuguesa do período, com toda sua poesia e suas desgraças. O desemprego, a repressão sexual, a sociedade machista...Nada escapa ao olhar atento do autor. Clarabóia é o prólogo do gênio de Saramago.

 

Saymon de Oliveira Justo