segunda-feira, 20 de setembro de 2021

O GRANDE CLÁSSICO

 


- O menino está com febre!

          Eu estava sem camisa, me consumindo no calor, como poderia estar com febre? Mas se minha mãe colocava uma coisa na cabeça não tinha Cristo que a demovesse. Ela iria perturbar a casa inteira até tirar todo mundo da cama em plena madrugada.

          Já beirava às 4 da madrugada, eu me sentia muito bem, apenas incomodado com o escaldante calor de um setembro sem chuvas. Mas na cabeça dela, mesmo com o termômetro dizendo o contrário, eu estava com febre.

          Todos na casa acordaram, eu, que já não conseguira dormir por conta do calor, minha irmã por causa do pandemônio e meu pai, que em poucas horas precisaria sair para o trabalho e perdeu sua noite de descanso.

          Me sentei na cadeira da cozinha, meu pai vestia uma camisa, observei uma mancha muito escura em sua barriga. Como eu era praticamente um médico, pois assisti várias vezes todas as temporadas de House, logo diagnostiquei uma necrose. Me assustei, falei pra ele procurar de imediato um médico. Mas ele disse que não era nada e para minha surpresa passou a mão sobre a tal necrose e limpou como se fosse um bolor.

          Passou mais um tempo, minha mãe gritando pela casa “o menino está com febre”, minha irmã querendo dormir e meu pai estranhamente ainda trocando a camisa. Outra necrose enorme nas costas. Novamente insisti na necessidade de correr ao médico com urgência, pois em alguns episódios de House já tinha visto pessoas perderem dedo, braço e até perna por necrose. Mas ele novamente disse que não era nada. Só puxou uma ponta e o que parecia necrose na verdade era uma escama de peixe preto que se descolou e revelou a pele integra por baixo.

          Minha mãe ainda insistia na febre, mas meu pai e eu estávamos sentados na mesa da cozinha. O relógio marcava 4 da manhã. Ligamos a TV e Palmeiras e Corinthians jogavam ao vivo valendo vaga para alguma fase de algum campeonato.

          Apesar da seca de setembro, o campo estava encharcado pela chuva e o jogo corria sério risco de ser paralisado. O placar marcava 1x1 e faltavam uns 20 minutos para acabar o segundo tempo. Minha mãe falava da tal febre inexistente, meu pai e eu assistíamos ao clássico e minha irmã dormia apoiada na mesa.

          Palmeiras no ataque, pela esquerda, o defensor corintiano puxa a camisa do atacante alviverde e não sei por qual lei física consegue tirar toda a roupa do palmeirense. O jogador do Palmeiras ficou totalmente nu em campo, tentou pegar o uniforme, mas outro atleta corintiano pegou as roupas e saiu correndo pelo campo e rindo debochadamente.

          Nesse ponto o árbitro paralisou a partida. Passaram-se alguns minutos, tudo foi se ajeitando, o juiz voltou com a bola na mão. O risco de paralisar a partida por conta do gramado encharcado era grande. Minha mãe falava da febre. Eu já tinha esquecido a necrose e juntamente com meu pai torcíamos para o prosseguimento da partida e a expulsão dos atletas corintianos, o que puxou o uniforme e o que saiu correndo com ele.

          Volta o árbitro com a bola na mão. Gramado parecendo um brejo. Toda pinta de paralisar a partida. Minha mãe falando de febre. Ansiedade. Meu pai e eu fixados na TV. O árbitro tira o cartão vermelho do bolso e expulsa os dois jogadores corintianos.

          Segue o jogo!!!

 

 

                                       Saymon de Oliveira Justo 20 de setembro de 2021