domingo, 25 de abril de 2021

Chuck e eu

 

                                


                                          

            Confesso que senti um frio na barriga quando abri o embrulho deixado pelos Correios. Sempre fui bastante cético e racional, mas abrir aquele pacote que eu não havia pedido e me deparar com um boneco Bonzinho, foi no mínimo estranho. Seja por conta da saga do Brinquedo Assassino, seja pela forma estranha que chegou às minhas mãos, confesso que pensei em me desfazer o mais rápido possível daquele brinquedo, porém, como cético convicto, não poderia me dobrar a impressões infantis.

            Deixei a caixa com o Bonzinho em um canto qualquer e voltei aos meus não poucos afazeres. Mas, por ridículo que pareça, sempre me surpreendia olhando para o boneco a procura de algum movimento das mãos, algum olhar, enfim, algo que denunciasse que aquele artefato de pano e plástico poderia abrigar a alma do tal assassino  Charles Lee Ray.

            Pensei em tirar o plástico da caixa, verificar se o Bonzinho estava com pilhas, passou pela minha cabeça inclusive guardá-lo no cofre forte. Mas não, um admirador de Einstein como eu não poderia cultivar esse ridículo nem no anonimato da própria mente. Depois do trabalho simplesmente desabei no sofá e adormeci.

            Não tenho idéia de quanto tempo dormi, só me recordo de acordar com um inesperado barulho de plástico. Achei que podia ser a TV, mas essa estava desligada. Ainda sonolento consegui firmar o olhar naquela já conhecida figura. Sim, por inacreditável que pareça Chuck estava ali, em pé, na minha frente. Aquela horripilante figura de cabelos vermelhos, com seus frios olhos azuis e aquela inconfundível e infernal risada, segurava uma faca quase maior que o próprio corpo.

            Pensei que podia estar mergulhado em um pesadelo, mas logo me dei conta que era o Chuck e não o Freddy. Levantei-me vagarosamente, atento a cada movimento do Bonzinho. Ele caminhava em minha direção. Faca em punho, “seremos amigos para sempre”, me dizia cinicamente. Conforme aprendi nos filmes, a única solução possível seria correr. Quando me preparava para sair em direção à porta Chuck tropeçou em um livro e estatelou no chão. Era minha chance de fugir.

            Resolvi fazer diferente. Não estava disposto a passar dias sendo coagido por aquele boneco patético. Coloquei em prática um plano que sempre cultivei quando assistia a saga do Brinquedo Assassino. Aliás, sempre me perguntei por que o Andy e outros atormentados não faziam algo mais simples do que correr.

            Primeiramente pisei no pescoço do Chuck, impedindo que ele alcançasse a faca. Como imaginei inúmeras vezes, realmente aqueles 1,5 kg de plástico e alma penada não teriam força para derrubar meus 80 kg cultivados a base de Coca Cola e carne assada. Abaixei-me e peguei o Chuck pelo pescoço, olhando diretamente nas profundezas dos olhos daquele demônio.

            Ele xingava, blasfemava, ameaçava e até tentava dar socos e chutes com aquelas perninhas e braços ridículos. Mas o máximo que acontecia, quando chegavam a tocar meu peito, era me deixar ainda mais irritado. Mesmo assim, como já tinha assistido todos os filmes, resolvi não facilitar e levei o boneco para minha oficina.

            Deitei o Chuck no cepo de madeira em cima da bancada de trabalho e com a outra mão empunhei a furadeira. O furo foi bem no local do umbigo, se é que aquela criatura tinha um. Ele gritou um bocado e uma mistura nojenta de sangue e plástico espirrou na minha blusa. Chuck esperneava, xingava, me ameaçava, mas pouco podia fazer diante daquela situação que lhe era tão desfavorável.

            Quando o parafusei firmemente no cepo sua atitude mudou. Os olhos azuis se tornaram angelicais, ele se desculpava, dizia que era um Bonzinho e que “seríamos amigos para sempre”. Aquilo me cortou o coração. Resolvi dar uma chance para ele, mas não antes de tomar minhas precauções.

            Com uma serrinha resolvi amputar as perninhas do Chuck, assim ele não cairia na tentação de correr atrás de mim. Ele urrava de dor, dizia palavrões do arco da velha, mas tudo aquilo era para o bem de nossa amizade. Novamente a mistura de sangue e plástico saia dos cortes. Não entendo muito da fisiologia de bonecos com alma encarnada, mas mesmo parecendo que o plástico agiria como coagulante, resolvi zelar o máximo possível pela vida do Chuck e com um maçarico queimei as extremidades de onde antes estavam as perninhas, para que assim, ele não se esvaísse em sangue.

            Quando achei que estava tudo resolvido e poderia soltar meu amigo Chuck, me lembrei da clássica cena dele com aquelas faquinhas enfiadas na mão e ameaçando geral. Era preciso amputar os braços. Com dor no coração, fiz o mesmo procedimento que havia feito nas pernas. Chuck novamente gritou e xingou bastante, mas era preciso.

            Ao final, depois de devidamente cauterizado com o maçarico, Chuck ou Charles Lee, se tornou um belo e inofensivo “tronco e cabeça”. Mas mesmo assim não achei prudente simplesmente solta-lo. Vai saber né?

            Hoje Chuck vive feliz em uma gaiola projetada especialmente para ele e que fica dependurada na parede do meu quarto. Como não tem pernas e nem braços, não preciso me preocupar muito com a possibilidade de fuga. Mas ele xingava muito. No começo eu até achava engraçado, mas começou a me irritar um pouco e então resolvi costurar a boca do Chuck com linha de sapateiro. Hoje ele fica ali e me acalma muito deitar e ficar olhando para seus doces olhos azuis.

 

Saymon de Oliveira Justo      26/04/2021

               

sexta-feira, 16 de abril de 2021

EXPERIMENTO 017

 


                                                     

                                             RELATÓRIO DE ATIVIDADES

 

1º dia. Depois de capturados, os oito exemplares da espécie destinados à pesquisa foram submetidos aos exames de rotina, os quais demonstraram que todos os indivíduos estavam perfeitamente saudáveis e aptos para os experimentos.

            Colocados em jaulas individuais, foram devidamente higienizados e alimentados.


2º dia. Os indivíduos foram divididos em dois grupos, “Grupo A” e “Grupo B”. Cada grupo formado por dois exemplares machos e duas fêmeas. Todos os indivíduos tomaram suplementos alimentares para em dez dias estarem nas melhores condições possíveis para o início dos testes.


12º dia. Salvo algumas escoriações causadas por se debaterem nas jaulas e o estresse natural do confinamento, todos os indivíduos apresentaram boas condições físicas e foram considerados aptos para o início dos testes.

            Os indivíduos do “Grupo A” foram retirados das jaulas e levados para o laboratório. Cada espécime recebeu uma “Coleira de Controle”, de forma que não atrapalhasse a respiração, mas impossibilitasse tentativas de fuga.

            Cada indivíduo foi colocado em uma esteira e uma corrente foi presa à coleira de cada um e ao gancho no teto do laboratório. Apesar de impedir que a cobaia saia da esteira, a corrente permite os movimentos necessários ao teste.

            Eletrodos de voltagem controlável foram colocados nos indivíduos para que sirvam de estimulo para que cumpram o que deles se espera.

            Colocados em movimento pela esteira, três começaram a caminhar normalmente. O indivíduo A1 (fêmea), no entanto, inicialmente se recusou a andar, mesmo ficando em posição bastante desconfortável, caído e com a esteira girando por baixo de seu corpo. Porém, após três cargas consecutivas de choques de média intensidade o A1 se colocou em movimento.

            Após o início da caminhada na esteira os quatro indivíduos foram submetidos a doses leves de radiação (doses U1), mas conseguiram caminhar por 1 hora sem sintomas.


13º dia. Os indivíduos do “Grupo A” foram submetidos novamente ao teste do dia anterior, contudo, dessa vez submetidos a dose U2 de radiação.

            Após meia hora de teste o macho A3 começou a apresentar cansaço, suores excessivos e ofegava mais que os outros. Deixou-se cair na esteira, mesmo preso ao pescoço. Porém, após receber choques elétricos por duas vezes, se colocou de pé e concluiu o teste com êxito.


14º dia. O “Grupo A” foi submetido novamente aos testes, dessa vez com doses U3 de radiação. Após resistência inicial de todos antes do início dos testes, quando submetidos a choques moderados passaram a se mostrar mais cooperativos.

            Dessa vez, na primeira meia hora de esteira os indivíduos A1, A3 e A4 apresentaram cansaço excessivo e vômitos. Porém, com os estímulos elétricos, mesmo com dificuldades conseguiram concluir a hora de teste. O indivíduo A2 apresentou apenas cansaço excessivo.


14º ao 25º dia. O “Grupo A” foi submetido diariamente ao mesmo teste, agora sempre com radiação moderada U3, por 1 hora ao dia.

            A partir da primeira meia hora todos os indivíduos passaram a apresentar cansaço excessivo e vômitos, mas com os estímulos por choques elétricos todos conseguiram terminar os testes.

            No 28º dia os indivíduos A1 e A4 apresentaram anemia e déficit de glóbulos brancos, tendo que ser sacrificados. Os indivíduos A2 e A3 apresentaram prostração, vômitos persistentes, mas sem maiores problemas. Foram sacrificados apenas por se encontrarem contaminados.


15º dia. Os indivíduos do “Grupo B” foram submetidos aos mesmos testes que os indivíduos do “Grupo A”. Todos os parâmetros foram mantidos, apenas as doses de radiação foram modificadas.

            Os testes foram iniciados com radiação de dosagem U4. A partir do minuto 40 todos os indivíduos apresentaram cansaço excessivo, sendo que a fêmea B1 e o macho B4 apresentaram vômitos. Porém, com os estímulos elétricos todos conseguiram terminar o teste.


16º dia. O “Grupo B” iniciou os testes novamente com U4 de radiação. Já nos primeiros 20 minutos todos apresentaram cansaço excessivo e o macho B4 vômitos. Mesmo com três estímulos elétricos o B4 não se levantou. Permaneceu caído, pendurado pelo pescoço e com fortes vômitos. Quando ia ser retirado da esteira teve parada cardíaca e faleceu.

            Os outros três indivíduos tiveram fortes crises de vômitos, caíram algumas vezes, mas com os choques elétricos conseguiram concluir os testes.


 17º dia. Iniciamos o teste com radiação U5. Nos primeiros 35 minutos todos os indivíduos já tinham apresentado cansaço excessivo e fortes vômitos. Mesmo submetidos aos estímulos por choques elétricos, não conseguiram terminar o teste. Até o minuto 45 estavam todos prostrados na esteira, com fortes vômitos, sangramentos nasais e forte confusão mental.


18º dia. Tentamos recuperar os indivíduos para mais um dia de teste. Receberam medicação, suplemento de vitaminas e cuidados paliativos. Entretanto, a fêmea B1 não resistiu.

            Mantidos os parâmetros do dia anterior, com radiação U5, o macho B2 e a fêmea B3 caíram já no minuto 15. Nem mesmo com cincos ciclos de choques elétricos fortes os indivíduos se levantaram. Permaneceram caídos nas esteiras, pendurados pelo pescoço e com crises incontroláveis de vômitos. Apresentaram também forte sangramento nasal.

            Mostrando-se claramente inaptos para novos testes, os exemplares foram sacrificados.

 

                                           CONCLUSÕES PRELIMINARES

 

            Os resultados dos testes nos permitem concluir que a espécie humana é biologicamente apta para remoção de detritos em territórios contaminados. Dessa forma, por razões econômicas, concluímos ser mais viável utilizar o grande estoque disponível de humanos do que os mais escassos habitantes quadrimãos do Planeta 3 do Sistema de Capella.

            Em áreas com radiação até U3 os humanos conseguem trabalhar bem por até 1 hora/dia durante 20 dias. Depois disso devem ser sacrificados, pois a radiação acumulada no organismo os torna inviáveis.

            Em áreas com radiação U4 e U5 os humanos podem ser utilizados por até 20 minutos/dia, mas por apenas 5 dias, devendo ser descartados ao final desse prazo.

            No que toca a considerações econômicas, sugerimos enfaticamente a criação de “Fazendas de Humanos”, com criação intensiva, pois é até agora a forma mais viável de remoção de detritos radioativos para áreas que pretendemos colonizar no planeta Terra.

 

Comissão Científica para Colonização da Terra. Ano III