Junão é amigo de infância, da primeira infância, de jogar bola descalço no asfalto, na Pracinha do bairro, amigo de juntar dinheiro para ir na locadora jogar Super Nintendo. Corintiano fanático, já tivemos inclusive uma patética e vergonhosa “briga de cuspe” por conta de um Palmeiras x Corinthians.
Pedro
é amigo do Ensino Médio, também corintiano fanático, mas nunca trocamos
cusparadas por conta de futebol. Me apresentou a política estudantil, a
política partidária, José Saramago, não pessoalmente, claro. Me apresentou também
o Moisés. Graças ao Pedro conheço o Saramago e o Moisés, esse último sim,
pessoalmente.
O
Pedro tem um vistoso Unão 98, com o qual diz que vai para Araraquara, Brasília,
São Paulo... Desconfio que a única forma do Unão chegar em São Paulo seria se
coubesse no bagageiro de um Cometa. O carro tem toda cara que frita o cabeçote
a meio caminho de Cristais Paulista.
Era
Ano Novo e o bairro estava em festa. Uma confraternização acontecia na Escola
Adelina Pasquino, que fica em frente ao “buracão do Palma”, na divisa entre o
Jardim do Éden e o Jardim Palma. Uma parte do buracão foi loteada e virou
bairro. Outra parte permanecia com a vegetação originária parcialmente
preservada, talvez alguma das antigas minas d’água da infância e argila.
Pedro
e Junão não se conheciam e provavelmente nunca se conheceriam. Aliás, talvez sequer
se conheceram. Curioso com a festa de Ano Novo na Adelina, fui me aproximando.
Na rua da escola, que terminava no buracão do Palma, vi um Unão estacionado. Pedro
deveria estar na festa. Próximo ao portão de entrada o Junão cambaleava, aparentemente
tinha tomado umas.
Fui
entrar na escola para procurar o Pedro, mas antes me dirigi até o Junão. Foi
justamente nesse ponto que a história do Pedro e do Junão se entrelaçaram tal qual
um emaranhamento quântico. Junão se esquivou do meu abraço e ainda cambaleando
foi se escorar no Unão do Pedro. Por experiência, nunca confiei no freio de mão
do Uno. Após um “nhec nhec” o Unão, que não devia estar engatado, desandou ladeira
abaixo e teve perda total no buracão do Palma.
Junão
se assustou e fugiu. O Pedro ficaria sem o Unão. O que fazer? Delatar o Junão
para o Pedro acioná-lo judicialmente? Ser X-9 já é feio. X-9 de amigo então...
É o fim de qualquer dignidade. Não falar nada para o Pedro também seria
complicado. Deixar o amigo sem o Unão e sem explicação também parecia covardia.
Eis meu dilema!
Resolvi
sondar o terreno antes de decidir o que fazer ou o que não fazer. Mandei uma
mensagem para o Pedro:
-
E aí Pedro, tá em Franca?
Poucos
segundos depois, “Pedro digitando...”
-
Não. Tô em Patrocínio, o Uno tá na oficina limpando o carburador.
Saymon
de Oliveira Justo 31/03/2025
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