terça-feira, 31 de maio de 2022

O VÉIO DO RIO


 

            Era estranho não sentir dor naquela situação, pois meu pé parecia mais uma massa informe, arroseada pela mistura de sangue e osso. Eu mancava um pouco, mas conseguia andar. Aliás, se não me engano, o pé estourado estava virado para o lado de fora e mais um pouco ficaria parecido com um pé de Curupira. Entre uma alucinação e outra eu me lembrei do poeta Castro Alves, que também tinha dado um tiro no próprio pé. Não me recordava do acidente em si, mas pelo estrago e pela arma que vi ao meu lado quando despertei, era a melhor explicação para o estado no qual me encontrava.

            Me encostei na parede daquele casebre de madeira e fiquei um bom tempo entre sonhos e alucinações, tal qual Raskolnikov após matar a velha da penhora. Sentia medo. Não por conta do estado do meu pé, mas um medo diferente, fruto daquela penumbra que tomava conta do casebre caindo aos pedaços no qual me abrigava. Logo o medo foi se transformando em pavor com o pressentimento de que alguém ou algo estava por aparecer.

            Ainda sentado e encostado na parede vi a porta se abrir e logo me acalmei. Na verdade, mais do que me acalmar, um grande alívio tomou conta do meu espírito quando vi aquela figura maltrapilha, de cabelos brancos, com o cajado na mão. Era Ele, o Véio do Rio. Como estava na forma de véio e não de sucuri, só podia estar ali para me ajudar.

            A luz de fora iluminava aquela figura agora angelical que vinha em minha direção. O Véio abriu um sorriso, certamente iria curar meu pé, me tirar daquela situação. Mas quando caminhava pelo corredor em minha direção, uma porta se abriu a direita do Véio. Durante todo tempo que estive no casebre não havia notado aquela porta, mas agora ela estava ali e se abriu. Era um boteco.

            No mesmo instante em que a porta se abriu o sorriso do Véio se transformou em gargalhada e ele simplesmente me esqueceu. Entrou no boteco dessa realidade paralela e foi beber e dançar com as pessoas que ali se divertiam. Aliás, não era um boteco como os de hoje, aquilo mais parecia um saloon do velho oeste americano e agora o Véio dançava com o próprio cajado entre um copo de pinga e outro.

            Novamente me prostrei no chão. O Véio não sairia dali tão cedo. O estado febril e as alucinações voltaram e em meio a elas aquela sensação de medo, de que alguém chegaria. Dessa vez a porta da frente sequer se abriu. Ela apenas se materializou ali na minha frente. Nunca a tinha visto antes, aliás, sequer sabia da sua existência. Mas tão logo bati o olho naquela senhora enrugada, com vestido todo cinza, tive certeza de quem era. Era a Véia do Rio, e estava com reiva.  

            Mal parecia me notar e logo ficou claro que o problema dela não era comigo, o que me deu certo alivio. A Véia foi entrando no casebre e foi direto para o saloon. Nesse momento senti o forte cheiro de pinga que vinha dali. Foi a última vez que vi a Véia.

            Não sei se eu estava acordado ou alucinando, mas a recordação que tenho é de alguns minutos depois ver o Véio saindo cabisbaixo do saloon. Entre meio bêbado e envergonhado, ele cambaleava apoiado no que parecia ser alguém invisível aos meus olhos, com o cajado flutuando a meio metro de distância, “andando” também ao lado dele.

 

                                                           Saymon de Oliveira Justo (31-05-2022)