Era estranho não sentir dor naquela situação,
pois meu pé parecia mais uma massa informe, arroseada pela mistura de sangue e
osso. Eu mancava um pouco, mas conseguia andar. Aliás, se não me engano, o pé estourado
estava virado para o lado de fora e mais um pouco ficaria parecido com um pé de
Curupira. Entre uma alucinação e outra eu me lembrei do poeta Castro Alves, que
também tinha dado um tiro no próprio pé. Não me recordava do acidente em si,
mas pelo estrago e pela arma que vi ao meu lado quando despertei, era a melhor
explicação para o estado no qual me encontrava.
Me
encostei na parede daquele casebre de madeira e fiquei um bom tempo entre
sonhos e alucinações, tal qual Raskolnikov após matar a velha da penhora. Sentia
medo. Não por conta do estado do meu pé, mas um medo diferente, fruto daquela
penumbra que tomava conta do casebre caindo aos pedaços no qual me abrigava. Logo
o medo foi se transformando em pavor com o pressentimento de que alguém ou algo
estava por aparecer.
Ainda
sentado e encostado na parede vi a porta se abrir e logo me acalmei. Na
verdade, mais do que me acalmar, um grande alívio tomou conta do meu espírito
quando vi aquela figura maltrapilha, de cabelos brancos, com o cajado na mão.
Era Ele, o Véio do Rio. Como estava na forma de véio e não de sucuri, só podia
estar ali para me ajudar.
A
luz de fora iluminava aquela figura agora angelical que vinha em minha direção.
O Véio abriu um sorriso, certamente iria curar meu pé, me tirar daquela
situação. Mas quando caminhava pelo corredor em minha direção, uma porta se
abriu a direita do Véio. Durante todo tempo que estive no casebre não havia
notado aquela porta, mas agora ela estava ali e se abriu. Era um boteco.
No
mesmo instante em que a porta se abriu o sorriso do Véio se transformou em
gargalhada e ele simplesmente me esqueceu. Entrou no boteco dessa realidade
paralela e foi beber e dançar com as pessoas que ali se divertiam. Aliás, não
era um boteco como os de hoje, aquilo mais parecia um saloon do velho oeste
americano e agora o Véio dançava com o próprio cajado entre um copo de pinga e
outro.
Novamente
me prostrei no chão. O Véio não sairia dali tão cedo. O estado febril e as alucinações
voltaram e em meio a elas aquela sensação de medo, de que alguém chegaria.
Dessa vez a porta da frente sequer se abriu. Ela apenas se materializou ali na
minha frente. Nunca a tinha visto antes, aliás, sequer sabia da sua existência.
Mas tão logo bati o olho naquela senhora enrugada, com vestido todo cinza, tive
certeza de quem era. Era a Véia do Rio, e estava com reiva.
Mal
parecia me notar e logo ficou claro que o problema dela não era comigo, o que
me deu certo alivio. A Véia foi entrando no casebre e foi direto para o saloon.
Nesse momento senti o forte cheiro de pinga que vinha dali. Foi a última vez
que vi a Véia.
Não
sei se eu estava acordado ou alucinando, mas a recordação que tenho é de alguns
minutos depois ver o Véio saindo cabisbaixo do saloon. Entre meio bêbado e envergonhado,
ele cambaleava apoiado no que parecia ser alguém invisível aos meus olhos, com
o cajado flutuando a meio metro de distância, “andando” também ao lado dele.
Saymon de Oliveira Justo (31-05-2022)
